ADORVEL TEXANO

(Donovan)


Diana Palmer




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Captulo Um


Nem bem entrou no bar, Fay se arrependeu. A julgar pelas dezenas de olhares masculinos que se fixaram nela, feminismo devia ser palavra desconhecida naquela distante cidadezinha do Texas.
Nervosa, ajeitou os cabelos castanhos e jogou-os para trs, esperando que o gesto demonstrasse desafio. Em seguida, pediu uma cerveja ao acidente. Outro gesto de desafio: afinal, em seus vinte anos de vida, jamais provara cerveja.
 Oi, belezinha. Quer danar comigo?
"Ai, meu Deus! Perigo  vista", pensou ela, quando identificou o dono da voz, um homenzarro barbudo cujo olhar parecia devor-la.
  No, obrigada.  Segurou a caneca com as duas mos para disfarar a tremedeira,  Eu... eu estou esperando algum.
Era verdade, ou quase. Havia tempos que esperava por algum, s que "ele" ainda no surgira em sua vida. Infelizmente! Cus, como precisava "dele" agora! Estava morando com um tio cobioso, daqueles que procuram subir depressa na vida sem olhar onde pisam. E esse tio resolvera entregar a sobrinha a um amigo fazendeiro, velho e feio, cuja nica virtude era ser rico. A herana de Fay, ainda em custdia, forava-a a suportar a tirana presena do irmo de sua me.
Sim, ela sonhava dia e noite com a libertao, mas esse cowboy barbudo e mal cheiroso decididamente no tinha a menor semelhana com um prncipe.
 Ora, meu potinho de acar, seja mais boazinha comigo.  Os dedos do homem apertaram-lhe o brao por cima da blusa, e Fay logo se lembrou de cobras.  Sei muito bem do que voc precisa. No, no fuja de mim, torrozinho...
Ningum notou quando o moreno se levantou e se aproximou, os olhos claros despejando fagulhas pontiagudas de prata, em completo silncio.
Ele usava jeans tambm; no impecveis como os de Fay, mas desbotados e gastos pelo trabalho. As botas folgadas no viam graxa havia muito, e nem de longe lembravam as elegantes botinas texanas. Era alto, muito alto.
 Voc vai ver como eu sou bom na cama, bonequinha. Vamos...  O galanteador parou de chofre quando avistou o outro se aproximando c piscou vrias vezes.  Ha... Ol, Donavan. Eu... h... no sabia que ela estava com voc.
 Agora voc sabe.
A voz, grave e cheia, trouxe um calafrio  espinha de Fay. Ela ergueu a cabea, deparando com um par de olhos de diamante que lhe tiraram o flego.
  Pensei que voc no viesse mais  disse ele, puxando-a pelo brao.  Vamos para a mesa,  mais confortvel. Traga sua cerveja.
Fay obedeceu como um autmato, agudamente consciente dos dedos firmes que a conduziam para o fundo do bar.
 Obrigada  balbuciou, aceitando a cadeira que ele lhe ofereceu. Um cigarro aceso no cinzeiro e um copo de usque cheio indicaram-lhe que o desconhecido chegara pouco antes dela.
 Quem  voc?  perguntou ele, estendendo a mo para o cigarro. Mo limpa, de unhas bem-cortadas, sem anis.
 Meu nome  Fay. E o seu?
 O pessoal me chama de Donavan.
Para ter o que fazer, ela experimentou a cerveja. Horrvel! Deus, como uma bebida to bonita podia ser to ruim?!
Um sorriso breve desenhou-se nos lbios bem-delineados de Donavan.
 O que faz aqui a esta hora da noite? Vejo que no est acostumada com cerveja e muito menos com bares como este.  uma debutante ou o qu?
  Fugi de casa  esclareceu ela, com um risinho.  Estou em franca fase de rebelio domstica. Ou, se preferir, vim para conhecer a vida noturna.
 E tem idade suficiente para isso?
 Para pedir uma cerveja no bar, tenho. Daqui a pouco fao vinte e um anos.
 No parece.
Fay estudou com mais ateno o rosto moreno, as mechas encaracoladas amontoadas cm desordem sobre o colarinho. Com um pouco mais de trato, ele poderia se tomar num homem de charme irresistvel.
  Voc mora aqui?  perguntou, por fim.
 Desde que nasci.
 Trabalha?
 Moa, por estas bandas do Texas todo o mundo tem de trabalhar para sobreviver.  Os olhos dele se desviaram para a pulseira de ouro de Fay.  Quase todo o mundo, quero dizer. Usar um enfeite como esse nesta parte da cidade  procurar encrenca, moa. Puxe mais a manga para esconder.
Ela obedeceu prontamente, assombrada com a prpria docilidade. Talvez estivesse bbada. Mas como, se no tomara mais que um gole de cerveja?
  Que  que voc faz, alm de dar ordens?  perguntou.
 Sou capataz de uma fazenda das redondezas. Por isso, sou obrigado a mandar.
 Ah, um cowboy! Eu nunca conheci um de verdade.
 Bem se v que voc no  daqui.
 Nasci na Gergia e vivi l at agora. Meus pais morreram num desastre de avio e... Bem, vim morar com meu tio. Minha vida se transformou num inferno desde ento.
 Pois caia fora  retrucou ele, com simplicidade.  No acredito em prises foradas, no desse tipo.
 No  to fcil assim. Veja, eu sou rica. Mas no posso tocar num nico tosto antes de completar vinte e um anos. Enquanto isso, meu tio faz o possvel e o impossvel para eu me casar com um scio dele, no sei por qu. Suspeito que haja um interesse escondido, mas ainda no descobri qual.
 Ser que voc existe mesmo, ou saiu de um conto de fadas? Que diabos, moa, mande seu tio plantar batatas, ponha-o para correr e seja dona de seu nariz, ora essa! Na sua idade eu j trabalhava para mim mesmo, no para meus parentes.
 Voc  homem.
 E da? At onde sei, estamos no sculo vinte. J ouviu falar em feminismo?
Fay sorriu para si mesma. Alguns minutos antes, seria capaz de jurar que ningum naquele bar tinha ouvido falar nessa palavra.
 No sou feminista, para dizer a verdade. Sou at meio antiquada. Quadrada, como dizem por a.
  Nenhuma mulher quadrada entraria num bar destes para pedir cerveja. E sozinha!
 Se ela estivesse a fim disso, entraria, sim, senhor  rebateu Fay rindo, os olhos verdes brilhando intensamente.  Alm disso, estou protegida. Nada vai me acontecer, porque voc est aqui.
Uma sombra fugaz perpassou os olhos claros de Donavan.
 Em outras palavras, voc acha que comigo est em segurana.
 O corao de Fay disparou de repente.
  Eu... espero que sim  disse, exalando fundo,  Creio que cometi uma bobagem vindo aqui mas, com toda a sinceridade, no gostaria de ser castigada por isso. Principalmente por voc.
Ele sorriu.
 Gostei do que ouvi. Parece que voc aprende depressa as lies, moa.
 Lies? Que lies?
 Da vida. Quando no se aprende da primeira vez,  preciso repetir at acertar.
Donavan depositou o copo sobre a mesa e fez um sinal ao garom.
 Agora vamos. Eu levo voc para sua casa. - Fay suspirou, amuada.
 J? Mas esta  minha primeira noite de liberdade! E tenho a leve impresso de que ser a ltima tambm...
 Nesse caso, vou fazer o que posso para que voc fique com uma boa lembrana dela  murmurou ele, colocando o chapu e erguendo-se.  Voc  corajosa?
Fay aceitou a mo estendida e tambm se levantou. No sabia explicar, mas alguma coisa lhe dizia que podia confiar nesse homem desconhecido, bonito e moreno.
 Sou  replicou, com um sorriso.
Donavan tornou-lhe o brao e guiou-a para fora, depois de distribuir alguns cumprimentos secos.
 Voc parece popular nesse bar  comentou Fay, inspirando com prazer o ar puro da noite fresca.
 No  para menos. Andei me metendo em muitas brigas a dentro. Coisas de homem solitrio, acho. Nem sempre eu tinha uma moa ao meu lado para me deter, sabe como ?
Caminharam em silncio por alguns minutos.
 Escute, moa bonita, eu sei apreciar uma ou outra aventura, mas isso  tudo o que ter de mim. Se ficar nesta cidade por mais tempo, vai entender por que no gosto de mulheres ricas. Enfim, hoje eu me sinto generoso.
 Acho que no entendi.
 , parece que no mesmo.  Ele riu sem vontade.  Voc no devia ter sado de casa.
  Ouo essa cantilena todos os dias. Mas como vou aprender a viver dentro de uma redoma?
 Saindo dela  admitiu Donavan.  Tem razo. Ponto para voc. - Pararam diante de uma caminhonete velha e enferrujada, cheia de pontos amassados no pra-lama.
 Desculpe se no tenho um Rolls-Royce, debutante. Eles no so muito bons para transportar gado.
Fay piscou diante da piada de mau gosto.
 Nem que fosse um cavalo eu me importaria. No julgo as pessoas pelo que elas possuem, sabia?
 Desculpe, foi uma brincadeira infeliz. Entre, por favor. E cuidado com essa mola solta; ainda no tive tempo de consert-la.
A caminhonete cheirava bem, a couro, fumo e asseio. Donavan deu a partida e perguntou, curioso:
 Escute, como veio at aqui? De carro?
 Vim.
Entre divertido e atnito, ele pousou os olhos num reluzente Mercedes estacionado entre outras caminhonetes e ferragens velhas.
 Sim,  meu  admitiu ela, num fio de voz. Mas acrescentou em desafio:  E no precisa me olhar desse modo.
 V? J est brigando comigo. E mal nos conhecemos ainda!
A caminhonete ganhou a estrada de terra batida, iluminada apenas pela luz leitosa da lua.
 Que  que voc faz, alm de fugir  noite?  perguntou ele, de bom humor.
 Estudo piano, pinto, leio. E tento no enlouquecer com as festas, recepes e jogos de carta que tenho de aturar  noite. E voc?
 Minhas tarefas so bem menos apaixonantes que as suas. Cuidar do gado, marcar os animais, admitir e despedir pees, tomar decises  Ele pigarreou e olhou-a de soslaio.  Vez por outra presido a sesses do conselho tambm.
 Mas voc no  capataz?
 Entre outras coisas, moa. Bem, aonde gostaria de ir?
 Para falar francamente, no sei. S sei que no quero ir para casa ainda.
 H uma festa em San Moreno, com muita cerveja e dana.
Os olhos de Fay brilharam.
 Daquelas de rua? timo, acho que vou adorar. Voc dana?
 Sou capaz de dar alguns passos, se for absolutamente necessrio.  Seu problema maior vai ser com a cerveja.  a nica bebida que lhe recomendo; tequila, alm de forte, d uma dor de cabea tremenda no dia seguinte.
  Ora, eu aprendi a gostar de caviar depois de muita luta comigo mesma. Creio que posso aprender a gostar de cerveja tambm.
Donavan no fez comentrios e ligou o rdio. Fay fechou os olhos e deixou-se embalar pela msica suave, pensando com crescente espanto na confiana absoluta que depositava num homem de quem s conhecia o primeiro nome. Tinha a impresso exata de que ambos eram velhos amigos que se reencontravam depois de alguns anos.
Essa impresso perdurou enquanto caminhavam pelas ruas iluminadas de San Moreno. Passearam entre lanternas coloridas, barracas adornadas com flores de papel crepom, msicos cantando a plenos pulmes. A cerveja quente e a msica ensurdecedora no incomodavam a ningum; ao contrrio, havia uma alegria contagiante no ar.
  O que eles esto celebrando?  quis saber Fay.
  Que importa?  riu ele.  Vamos danar.
Riram, conversaram, danaram, cantaram. Fay nunca se sentira to bem em toda a vida; se lhe dissessem que ela morreria no dia seguinte, receberia a notcia com alegria, porque valera a pena viver s por causa dessa noite. At a cerveja quente descia com incrvel facilidade, principalmente depois de uma dana animada. Era uma sensao gostosa, a de estar entre os braos musculosos de Donavan, aspirar seu aroma de couro e fumo, sentir seu hlito morno perto do rosto. No final, Fay estava mais embriagada de Donavan que da cerveja propriamente dita.
A orquestra deu incio  ltima msica, suave, calma. Fay deslizou para o aconchego do peito macio, e os braos de Donavan envolveram-na, apertando-a docemente. A melodia penetrava seus ouvidos envolta numa neblina dourada de puro prazer, o corpo reagindo a proximidade masculina de um modo novo e desconhecido. Assustada, ela ergueu os olhos tmidos, cheios de curiosa apreenso.
 Est tudo bem, doura  disse ele, entendendo.
 Eu... eu no sei o que est acontecendo comigo. A cerveja... 
No  preciso fingir, querida. No comigo. As mos de Donavan emolduraram-lhe o rosto por alguns instantes.  Acho que est na hora de voltar.
 Precisamos mesmo?
  tarde.
Pegou-a pela mo e levou-a at a caminhonete. Donavan percebera com clareza o que se passara com Fay e, mesmo a contragosto, fora forado a admitir que com ele acontecera algo parecido. Contudo, no tinha o menor interesse em se envolver com uma ricaa mimada. S Deus conhecia o inferno por que passara quando o pai resolvera se casar com uma delas. Fora um desastre completo, a runa e a vergonha da famlia. O pai perdera a cabea ao encontrar  disposio uma herdeira e casara-se com ela, mal enviuvara. Enfim, Fay decerto ouviria a histria completa, acrescida de certos detalhes trgicos, bem ao gosto das comadres fofoqueiras. Ele, Donavan, no comearia algo que seria incapaz de terminar. Mesmo tendo se sentido atrado pelo corpo macio e sensual de Fay, no iria mais longe que uma inocente dana. Fay com certeza j tivera uma dzia de amantes, e ele no pretendia ser mais um retrato da galeria.
Quando pararam em frente ao elegante Mercedes, a alegre animao de Fay diminuiu consideravelmente. Quando voltaria a encontrar o bonito e alto texano?
  Obrigada, Donavan  disse, pegando o chaveiro da bolsa.  Foi uma noite mgica para mim.
 Eu que o diga, moa  Donavan abriu a porta do Mercedes e sorriu. Mas no volte mais para este lado da cidade. Voc no combina com ele.
Os olhos verdes fixaram-se nos dele.
 Detesto minha vida.
 Cabe a voc mud-la.  s uma questo de querer e lutar.
 No estou acostumada a lutar.
 Ento  bom comear a se acostumar, moa, porque a vida no d, ela toma. Vale a pena lutar pelo que se quer, acredite.
Fay brincou com as chaves, pensativa.
 No meu mundo essa luta pode se transformar numa guerra feia e sangrenta.
 No meu tambm, mas isso nunca me intimidou. Erga a cabea e v em frente.
Os olhos dela pousaram no peito largo que lhe servira de travesseiro durante os momentos mgicos de dana.
 No vou me esquecer de voc, Donavan.
 Cuidado comigo, moa  murmurou ele, ajeitando os cabelos compridos de Fay atrs da orelha. A orelha mais delicada e cor-de-rosa que j vira.  A ltima coisa que desejo na vida  me envolver com algum. Seu mundo jamais combinaria com o meu. No procure encrenca, por favor.
 Mas voc acabou de me dizer que lutasse.
 Sim, mas no para o meu lado  Ele soltou um riso seco, quase sem vida.  At a vista, Fay. E dirija com cuidado.
 Voc... Voc no vai me dar um beijo de boa-noite, pelo que estou vendo. No gostaria nem de experimentar?
 Muito. E  justamente por isso que no vou beij-la.
Muda e magoada, Fay entrou no carro e deu a partida, sentindo que algo se partira dentro dela. Quando ganhou a estrada, j no viu mais Donavan. Era como se tivesse perdido um pedao de si mesma.
E talvez tivesse perdido mesmo, pois nunca se sentira to ligada  outra pessoa como nessas ltimas horas. Os pais, mergulhados na vida mundana da alta sociedade, haviam se limitado a dar-lhe mesadas e a fazer-lhe festinhas no queixo. Ela crescera sob os cuidados de governantas numa manso imensa, sem irmos ou primos para amenizar sua solido.
Henry Rollins, o tio Henry, era um caso perdido, em sua opinio. A princpio, ele chegara a engan-la com seu jeito alegre e receptivo, mas em breve Fay percebeu que se iludira com ele. Tio Henry fazia de tudo para aparentar uma riqueza que estava longe de possuir.  lgico que a tutela da sobrinha lhe cara dos cus, e ele logo se pusera a promover festas e recepes em casa, sob o pretexto de apresent-la  sociedade. Oferecia caviar, champanhe, contratava orquestras regionais, tudo para impression-la. Deslumbrada com o tratamento rgio que lhe era dispensado, Fay no protestara; mais tarde, embora convencida de que as atenes do tio eram apenas interesseiras, achou muito mais cmodo no brigar. Nessa noite, quando descobrira que tio Henry convidara uma nica pessoa para jantar, rebelara-se pela primeira vez. Porque o convidado era o tal scio do tio, Sean. Assim, pegara o carro e fugira do desagradvel jantar a trs.
O destino levara-a para um bar insignificante, numa rua insignificante da parte mais insignificante da cidade. E ali ela conhecera um homem que lhe abrira os olhos e fizera-a enxergar aquilo em que se transformara: uma criana dbil e submissa, tmida demais para lutar pelo que era seu.
Bem, ainda estava em tempo de virar a mesa. E era isso, exatamente, o que pretendia fazer. A partir daquela noite.
Donavan fascinara-a. S de pensar no modo manso e firme com que ele a livrara do incmodo galanteador, seu corpo vibrava de prazer. As mos morenas e quentes enlaando-lhe a cintura, os olhos de diamante lapidado, o sorriso breve, quase imperceptvel, todas essas lembranas faziam com que seu corao disparasse.
Mas ele no gostava de mulheres ricas. Chamara-a de debutante algumas vezes, numa clara aluso s mocinhas milionrias que eram apresentadas pela primeira vez  sociedade em bailes luxuosos. Era evidente que no havia o menor interesse dele em conhec-la melhor, uma vez que nem sequer lhe perguntara onde ela morava e qual era seu nome de famlia.
E quem era Donavan, afinal? Capataz de uma fazenda. Era tudo o que descobrira.
Fay suspirou. Sabia que nunca esqueceria o bonito moreno que lhe abrira os olhos na noite mais memorvel de sua vida.


CAPTULO II



Fay parou de escrever e olhou em torno, satisfeita. O pessoal trabalhava em silncio, e o escritrio oferecia-lhe um mundo agradvel de paz e segurana. Vivera duas semanas tumultuadas desde que comeara a trabalhar, mas valera a pena. Seu primeiro emprego!
E toda essa mudana, devia-a a Donavan. Naquela noite, ele lhe ensinara como achar dentro de si mesma o respeito prprio, o orgulho e a confiana. E agora, ali estava ela, mergulhada num mar de papis e documentos, atolada de servio, mas feliz. Tornara-se independente, e assim permaneceria at receber a herana dos pais.
No fora fcil, entretanto. Tudo comeara no escritrio de Barry Holman, o advogado encarregado da herana; Fay, decidida a declarar independncia de tio Henry, fora perguntar se tinha direito a retirar mensalmente uma pequena quantia para se sustentar at completar a maioridade. E a resposta fora um solene e redondo no.
  O qu!?  exclamou ela, estarrecida.  Est me dizendo que no tenho direito a nenhum centavo, a menos que meu tio me d a... a sua "sagrada" permisso?
 Infelizmente  assim, minha cara. Talvez voc ache injusto, mas foi essa a deciso de seus pais.
 No acredito  murmurou ela, chocada.  No quero depender de tio Henry, sr. Holman.  humilhante demais!
 Bem, voc entrou aqui falando em procurar trabalho. Talvez seja essa a sada. A secretria de meu amigo Justin Ballenger est de licena de gravidez. Por que no tenta ir at l e se oferecer para substitu-la? Posso recomend-la a Justin, se quiser.
A inesperada oferta ajudou-a a recobrar o nimo. Fay sorriu, esperanosa e agradecida, para o advogado, cujos olhos castanhos denotavam compreenso. E, a julgar pela foto que repousava sobre a escrivaninha, era um homem feliz no casamento,
 Obrigada, o senhor  muito gentil. Claro que aceito!
 Entende alguma coisa de gado, Fay?
Ela hesitou.
 Para dizer a verdade, no. Mas sou tima aprendiz, garanto!
 No duvido. Sabe bater  mquina?
  Ah, isso eu sei. E lidar com computadores tambm, arquivo, agendas. Fiz o curso completo antes de deixar o colgio.
 timo! Parece que vem a propsito, porque no  fcil encontrar quem se disponha a trabalhar por pouco tempo. A secretria dos Ballenger deve voltar logo da licena, e por isso...
 Dos Ballenger? No  um s?
 Dois. Justin tem um irmo que trabalha com ele  Holman escreveu uma nota rpida e entregou-lhe o papel.  Tome o endereo. Procure Justin ou Calhoun e diga que foi recomendada por mim. Voc vai gostar, Fay, tenho certeza.
Ela se levantou e apertou a mo do advogado.
 Obrigada, sr. Holman. Qualquer coisa ser melhor do que depender de meu tio.
 Henry no  m pessoa, Fay. Ele... Bom, pode ser que ele tenha algum plano em mente para seu futuro.
 Com certeza  murmurou ela, sentindo um calafrio na espinha. O modo como o tio a atirava nos braos do amigo solteiro dava-lhe nos nervos.  Sr. Holman, meu tio tem cuidado bem de meus negcios? J faz dois meses que ele assumiu minha tutela.
 No sei ainda. Pedi-lhe a folha de contabilidade, mas ele se recusa a me dar qualquer informao antes de voc chegar  maioridade.
 No estou gostando disso  volveu ela, aflita.  Uma vez, papai mencionou que eu tinha pelo menos dois milhes de dlares no banco. Ser que tio Henry... j gastou tudo?
 Nem haveria tempo para isso  O advogado riu, abrindo-lhe a porta.  Sossegue, Fay, tudo dar certo. V procurar os irmos Ballenger em meu nome. E boa sorte!
Foi Justin Ballenger que a recebeu. No era um homem bonito, mas corts e gentil.
 Fao questo de frisar que o emprego  temporrio, para evitar desapontamento futuro de sua parte. Nossa secretria, Nita, dever voltar dentro de uns dois meses.
 J vim prevenida sobre isso, sr. Ballenger, e no me importo. Esses dois meses sero suficientes para eu aprender a viver sozinha. Eu... h... morava com meu tio, mas a situao... no estava muito confortvel para mim.
Sem saber como, Fay viu-se contando para Justin Ballenger a histria de sua vida.
- Pelo que vejo, seu tio  um homem mercenrio  sentenciou ele, depois de ouvir o breve relato de Fay.  A senhorita tomou a deciso correta, em minha opinio. E pea a Barry que fique de olho nos seus negcios.
 J pedi, obrigada. O senhor... vai guardar segredo disso, no ?
 Lgico! Esse assunto diz respeito somente a voc, Fay. No que me toca, voc  uma garota pobre que teve uma pequena desavena com a famlia e veio me pedir emprego. Est bem assim?
 Perfeito  sorriu ela, aliviada.  Na verdade, eu sou mesmo pobre, uma vez que a herana est vinculada. Mas  por pouco tempo. No que eu ligue muito para dinheiro, isso no. Por mim, mil vezes viver numa cabana ao lado de quem amo a morar num palcio com um ilustre desconhecido.
  uma moa sensata, Fay. Shelby e eu tambm pensamos do mesmo modo. No somos pobres mas, se fssemos, no fatia a menor diferena. Temos um ao outro, temos nossos filhos. O destino foi bondoso conosco.
Fay sorriu, porque conhecia a histria do casamento de Shelby com Justin. Era uma linda histria de amor, e com final feliz. Sem saber por que, seu pensamento voou para Donavan.
 Talvez um dia eu tenha essa mesma sorte, sr. Ballenger.
 Ser bem merecida. Bom, Fay, o cargo j  seu. Bem vinda a bordo de nossa equipe! Venha, quero apresent-la ao meu irmo.
Calhoun Ballenger, alto e louro, estudava com ateno a papelada espalhada sobre a escrivaninha.
 Esta  Fay York, substituta de Nita  anunciou Justin.  Fay, este  meu irmo Calhoun.
  um prazer, srta. York.  O louro estendeu-lhe a mo e sorriu com sinceridade genuna.  Quem vai gostar da novidade  minha mulher Abby. Ela tem passado uns dias "quentes" por aqui, tentando nos ajudar. Mas no  fcil cuidar de trs capetas, da casa e de nosso escritrio ao mesmo tempo!
 Realmente.  Fay riu.   muita coisa para uma mulher s!
Nesse momento, uma mulher jovem e bonita entrou esbaforida, equilibrando uma pilha de pastas, os cabelos negros despenteados. Seus olhos azuis fixaram-se nos de Fay por alguns instantes, curiosos.
 Oh, por favor, por favor, diga que aceita!  implorou ela, com tanto fervor que Fay se ps a rir perdidamente.  De minha parte, eu tenho um suborno para voc infalvel: trufas de chocolate feitas em casa...
 No  preciso  cortou Fay, divertida.  J aceitei substituir Nita at ela voltar.
 Aleluia!  gritou Abby, jogando as pastas sobre a escrivaninha. Depois voltou-se com ternura para o marido.  Hoje vou fazer um jantar especial para voc, amor.
 E o que est fazendo aqui ainda?  explodiu ele, feliz, enquanto piscava um olho para Fay.  Abby faz os melhores quiches do Texas. No, do mundo! E eu venho comendo cachorro-quente h uma semana por causa deste bendito escritrio... Meu estmago anda em pandarecos!
  E o meu tambm  acrescentou Abby, risonha, puxando Fay pela mo.  Venha, querida. Vou lhe emprestar um pouco de minha sabedoria, para voc no se sentir muito perdida aqui dentro.
As duas deixaram os homens conversando e foram para a saleta que dali em diante seria de Fay. Abby fez um breve resumo das tarefas, explicando como preencher formulrios e controlar a rao do gado no computador.
  Do jeito como voc explicou parece simples  disse Fay, ao cabo de meia hora.  Mas deve ser mais complicado, no ?
 Bem mais  admitiu Abby.  Especialmente quando se tem de lidar com clientes como J. D. Langley. Homem exigente est a, capaz de fazer um santo perder a pacincia.
- Quem  ele?
 Um... fazendeiro de gado, digamos assim. Mas ele lida com gado de terceiros.  tambm o conselheiro da Associao Mesa Blanca.
 J ouvi falar em Mesa Blanca.  uma associao de criadores, no ?
 Exato. Mas no me interprete mal; J. D.  excelente profissional, e por isso mesmo, exigentssimo. Uma vez ele viu um vaqueiro tocando as reses com vara de gancho e foi um deus-nos-acuda. Pulou na garganta do homem, rolaram em cima dos trilhos do trem... Foi um carnaval. Ele verifica a qualidade dos gros que fornecemos, a porcentagem de melao, e  capaz de brigar por diferenas mnimas. Em resumo, J. D. no faz muita questo de facilitar nosso trabalho.
  rico?
 No. Seu poder vem apenas da inesgotvel capacidade profissional. Tem um temperamento esquentado, mas os criadores sabem que no existe ningum melhor para cuidar do gado. Ai de quem se atreve a discutir com ele!
A descrio de Abby trouxe  cabea de Fay, sem que ela soubesse por qu, a lembrana de uma noite mgica e inesquecvel. Por mais de uma vez ela voltara ao pequeno bar onde encontrara Donavan, mas no tivera coragem de entrar: no queria dar a impresso de que estava  caa dele. O que, em ltima anlise, seria a expresso exata da verdade.
 Esse Langley  casado?  quis saber.
 E que mulher teria coragem de se casar com essa fera? O casamento do pai deixou-o amargurado e cheio de preconceitos contra ns, as do chamado sexo frgil. J. D. andou brincando de playboy durante algum tempo, mas acabou assentando a cabea. O presidente da Mesa Blanca j anunciou que vai passar o cargo para algum de capacidade, e todos logo pensaram em J. D. Contudo, outra exigncia do presidente  que seu substituto seja casado e tenha filhos, portanto nosso heri est riscado da lista.   Abby soltou uma risada alegre.   No posso imaginar J. D. como um pacato chefe de famlia! A nica criana que vai existir na vida dele, na minha opinio,  o sobrinho que mora em Houston, filho da irm.
 Nossa, o homem deve mesmo ser difcil...
 Sempre foi. Eu, porm, dou o devido desconto; afinal, o casamento e a morte do pai deixaram cicatrizes profundas na alma de J. D. Meu Justin at que compreende melhor o problema, mas Calhoun... Quando meu cunhado e ele se encontram, sai at fasca.
 J estou com medo de encontrar esse cidado. J. D. costuma vir sempre ao escritrio?
  A cada quinze dias, e nunca falha. Traz sempre uma lista de reclamaes consigo.
 Ainda bem que no vou ficar aqui por muito tempo!
Abby riu alto.
 De qualquer modo, voc nem precisa conversar com ele. Quem o atende  Justin ou Calhoun.
 Ah, j estou respirando melhor...
O primeiro dia foi ao mesmo tempo cansativo e produtivo. Fay aprendeu a separar os lotes de rebanho, catalogar as fichas individuais de cada rs, modificar o balanceamento da rao de acordo com a variao de peso dos animais. Teve as primeiras noes de servios veterinrios, alm de controle de vacinas, e no fim do dia j preenchia os formulrios com rapidez e eficincia. A tarefa mais tediosa era preparar extensos relatrios dirios para cada cliente, dando conta minuciosa do que acontecera com cada rs.
 medida que os dias se passavam, Fay foi ganhando mais confiana no que fazia, incentivada pelos elogios de Justin e Calhoun. Cultivava a esperana de um dia rever Donavan, pois ele tambm lidava com gado. Se a fazenda onde trabalhava cuidava bem dos animais, decerto utilizaria os servios do escritrio, pelo menos no que tocava a raes.
Desejava contar-lhe o quanto fora importante quela noite em sua vida. A conversa com Donavan alargara-lhe o horizonte e dera-lhe a to sonhada independncia pela primeira vez. De moa tmida e medrosa, Fay se transformara numa mulher segura, e agora queria demonstrar sua gratido. Por diversas ocasies, ensaiou perguntar a Abby se ela conhecia algum chamado Donavan, mas recuava sempre, sabendo que a nova amiga, decididamente, no era freqentadora de bares de estrada.
O tio tentara demov-la da idia de ir morar sozinha, mas Fay se mostrara irredutvel.
 No, tio Henry, no quero mais depender de voc. E, por favor, faa o quanto antes um relatrio da contabilidade de meus negcios para o sr. Holman.
Ao ver a expresso aborrecida e indecisa do tio, a desconfiana de Fay aumentou. No dia seguinte, ela telefonou para o advogado:
 Sr. Hollman, meu tio tem autoridade absoluta sobre minha herana? Em outras palavras, ele pode tirar o quanto quiser da conta sem me avisar nada?
  A procurao dele  limitada, Fay. No se aflija tanto; seu tio deve estar agindo dentro da lei.
Ela ficou na mesma. O tio era astuto o suficiente para saber como se manter "dentro da lei" e, ao mesmo tempo, dissipar sua fortuna.
A pilha de papis que encontrou em cima da mesa naquela manh desviou sua ateno at a hora do almoo. Fay desceu para comer um sanduche, e quando voltou ouviu uma discusso acalorada vindo do gabinete de Calhoun.
  Seja mais razovel!  a voz irritada de Calhoun reboou pelo corredor.
 Voc  que no est sendo razovel!  a outra voz, igualmente inflamada, eriou os cabelos de Fay.  E se quiser que eu continue utilizando seus servios, comece a tratar do gado sob minha responsabilidade como eu exijo!
 Mas o que voc quer, homem de Deus? Que eu ponha um guardanapo em volta do pescoo desses bichos e lhes d a rao na boca com colher e garfo?
 Quero que os animais sejam tratados com humanidade, nada mais.
  o que estamos fazendo!
 Desde quando choques eltricos significam tratar com humanidade? As reses ficam assustadias, comem menos e acabam doentes.
 Por que no se inscreve na Associao Protetora de Animais?
 J fao parte de duas.
A porta se abriu com violncia, e Fay, tremula, ergueu os olhos. Aquela voz...
Sim, s a voz dele poderia deix-la naquele estado. Donavan. Alto, moreno, os olhos cintilantes e claros contrastando admiravelmente com as sobrancelhas bastas e negras.
Fay sentiu vontade de danar de alegria, mas seu sorriso morreu quando ele franziu a testa ao v-la. Parecia contrariado, e com cara de poucos amigos.
  O que voc est fazendo aqui?
 Substituindo Nita.
 O qu! No me diga que agora precisa trabalhar para viver?! - Fay se encolheu, intimidada. Sabia que Donavan tinha gostado da festa tanto quanto ela, e no podia compreender a razo de tanta agressividade.
 Bem, eu... Sim, preciso.
  uma queda e tanto  Os olhos de prata indicavam incredulidade patente.  Ainda se exibe pela cidade com o Mercedes?
 Vocs se conhecem?  perguntou Calhoun. Donavan tirou uma baforada do cigarro com toda a calma.
 De vista.
 Nesse caso, vou voltar para meu gabinete. Passe bem, J. D. -Donavan esperou que a porta se fechasse atrs de Calhoun antes de falar.
 Voc anda rondando aquele bar com regularidade.
Fay baixou a vista, encabulada. No tinha como negar; de fato, fora ao bar algumas vezes, na esperana de encontr-lo. Sua inteno era agradecer-lhe os conselhos e contar que tinha declarado independncia por causa dele. Donavan, contudo, interpretara aquela atitude  sua maneira.
 Foi l que voc descobriu que eu tinha negcios com os Ballenger? Sem dar tempo para ela responder, continuou, num tom abertamente hostil.  No adianta, moa. Eu avisei naquela noite, e repito agora: no quero saber de debutantes enrolando minha vida. Quis se dar ao trabalho de procurar emprego aqui s para me encontrar, o problema  seu. Desista e volte para seu caviar com champanhe. Voc  bonitinha, mas eu estou fora do mercado. Entendeu ou quer que explique melhor?
Em meio  confuso que se instalou em seu crebro, Fay conseguiu manter a aparncia serena.
 Fui recomendada para este cargo pelo meu advogado, o sr. Holman  explicou, enquanto escondia as mos tremulas sob a pilha de documentos.  No posso tocar num s tosto da minha herana antes de completar vinte e um anos, e este era o nico emprego disponvel em Jacobsville. Uma vez que estou morando sozinha, preciso pagar meu aluguel e minha alimentao. Quanto a ir ao bar,  verdade. Minha inteno era procur-lo para... para dizer que voc mudou minha vida. Que eu estou aprendendo a sair da redoma sozinha e... e que estou agradecida pelo que voc me ensinou.
Donavan no amoleceu. Ao contrrio, suas mandbulas se contraram e seu olhar ganhou um brilho de ao gelado.
 No preciso dos elogios nem da idolatria de uma adolescente. Em todo o caso, se isso a faz feliz, aceito seus agradecimentos.
A voz zombeteira soava como chicote nos ouvidos de Fay. Que boba fora! Chegara at a sonhar com esse reencontro, planejara contar tudo o que aprendera e mostrar, orgulhosa, o recibo do primeiro aluguel. A atitude protetora e firme de Donavan naquela noite fizera com que ela se sentisse mulher, estranhamente mulher. Despertara nela a vontade de v-lo, toc-lo, senti-lo. Contudo, Donavan deixava claro que no precisava de sua afeio. Havia honestidade em sua atitude, sem dvida. Mas essa honestidade doa-Ihe fundo na alma.
 Fique sossegado  disse, com um sorriso forado.  No tenho nenhuma inteno de correr atrs de ningum. A nica coisa que eu queria era agradecer-lhe.
 J agradeceu.
  Eu... estou aqui s por algum tempo, at Nita se recuperar. E quando eu receber a herana, vou embora para a Gergia. Vou mesmo, garanto!
Ele ergueu as sobrancelhas.
 No lhe pedi nenhuma explicao, debutante.
 Ento com licena.
Fay fingiu concentrar-se no computador, mas seus olhos ardiam como brasa e os nmeros se embaralhavam na tela. Sentiu as mos pesadas e frias, mas forou-as a acionar o teclado, timbrando em no erguer mais a cabea.
Donavan no se fez de rogado para sair. Em poucos segundos, tudo o que sobrava dele na sala era o aroma penetrante de tabaco e couro.
  Fay, preciso sair por uma ou duas horas  avisou Calhoun, deixando o gabinete.  Explique a Justin quando ele chegar, sim?
 Pois no.
Calhoun estacou, surpreso. No era preciso ser psiclogo para saber que a moa estava sofrendo, e bastante.
 No se deixe abater pelas palavras dele, querida. Eu mesmo custei a perceber que o diabo no  to feio como o pintam. Tive umas duas ou trs brigas com esse homem, das feias, mas acabei descobrindo que no vale a pena. Ele no sabe ser gentil com ningum; faz parte de sua personalidade.  uma simples questo de aceit-lo como .
 Ele me tirou de uma situao difcil, e eu s queria agradecer, mas houve um mal-entendido. Deus, o homem pensa que eu vim trabalhar aqui s para v-lo!
Calhoun soltou uma gargalhada.
 Pois fique sabendo que voc no seria a primeira, minha cara. Muitas tentaram essa manobra, acredite! O pior  que quanto mais ele rosna, mais as mulheres se assanham.  natural, pois  bonito, livre e desimpedido. Alm do mais, estamos diante de um gnio brilhante. Seu trabalho na Mesa Blanca  assombroso.
 Mesa Blanca?  repetiu ela, area. As peas do quebra-cabeas comearam a se ajustar nos lugares certos.  Mesa Blanca?
 Mas como  isso? Vocs no se conheciam ento? Bem, esse furaco que saiu daqui atende pelo nome de J. D. Langley.





CAPITULO III


Fay conseguiu transpor com bravura o resto da tarde, demonstrando alegria e animao. Por dentro, porm, sentia-se um deserto desprovido de vida. Alimentara esperanas de que Donavan tivesse se interessado por ela, mas a atitude dele indicara-lhe, com incrvel eficincia, que quanto mais depressa desistisse da idia, melhor.
Quando finalmente descobrira que ele era o clebre J. D. Langley, o choque no fora to grande assim. A descrio de Abby encaixava-se como luva em Donavan, e ela se surpreendia por no ter desconfiado antes que ambos eram a mesma pessoa.
Mais tarde, por meio de perguntas discretas, descobrira que Donavan era o nome do meio do temido cliente. E comeara a compreender a razo de todos do escritrio no apreciarem as breves visitas dele. Que homem difcil e imprevisvel!
Na noite em San Moreno, Fay experimentara uma doura indescritvel, e julgara que ele tivesse sentido o mesmo. Ao que tudo indicava, porm, esses sentimentos haviam partido apenas de seu lado.
Bom, o remdio era esquecer os sonhos dourados e tentar se concentrar no trabalho. J tinha problemas o suficiente com que se preocupar, e no precisava de mais um na vida.
O destino, contudo, parecia conspirar contra ela. No dia seguinte, atrada por uma lanchonete limpa e arejada, Fay resolveu entrar para almoar. E deu de cara com J. D. Langley assim que apanhou a bandeja e sentou-se no nico lugar vazio. Foi presenteada com um olhar venenoso e uma careta de desgosto que transformaram sua espinha em sorvete.
 Eu avisei ontem e repito agora, moa. No gosto de ser perseguido.
Fay ficou escarlate com a frase cortante, dita num volume alto o bastante para todos se virarem, espantados. Seus olhos verdes fitaram-no, arregalados, e seus lbios comearam a tremer.
- Eu no sabia que voc estava aqui...  comeou, morta de vergonha.
 No mesmo?  O sorriso dele era a personificao do desprezo.
- Para comear, meu carro est estacionado no ptio. E, para terminar, no sou to pequeno assim para no ser notado. Desista, debutante. No gosto de crianas mimadas, portanto pare de me seguir.  Entendido?
Assim dizendo, Donavan engoliu o caf, levantou-se e saiu sem olh-la. Fay afundou o nariz no prato, rezando para que o cho se abrisse c a tragasse ali mesmo. A comida descia como serragem pela sua garganta, e por fim ela largou o prato pela metade, amaldioando a hora em que entrara naquela lanchonete. Nunca mais voltaria ali, nunca mais!
Foi com dificuldade que retomou o servio. Seguir Donavan pela cidade, com efeito! Se nem sabia que carro ele tinha! Naquela noite J. D. estava com uma caminhonete velha, no um carro. E no estacionamento no havia nenhuma caminhonete igual  dele.
Bem, pacincia. Donavan que pensasse o que quisesse, mas um dia a verdade viria  tona. Ela "no" estava caando ningum, muito menos J. D. Langley.
Na tarde seguinte, Abby surgiu no escritrio e fez-lhe um convite.
 Hoje h um baile beneficente no clube. Sei que est em cima da hora, mas voc no quer ir conosco?
  Ser que meu tio vai estar presente?
 Duvido. E que diferena faz? Vamos, Fay, voc merece se divertir um pouco. Quero apresent-la a algum no baile. Algum solteiro, simptico e rico o suficiente para no se importar com sua herana.
 H... E o sr. Langley? - Abby fez uma careta.
 , eu soube o que aconteceu no Cole's. Que situao, hein? Mas no se preocupe, ele no  homem de bailes.
  Ainda bem! Engraado, Abby, na primeira vez que nos encontramos ele foi to gentil, que no d para acreditar. Mudou por completo comigo. Julga que eu ando atrs dele, imagine!
  Voc no  o tipo de J. D., querida. Sua fortuna basta para assust-lo. Sem falar na diferena de idade, porque ele est na casa dos trinta e tantos. E vive dizendo que no gosta de mulheres muito jovens.
  Para mim ele no gosta de nenhuma mulher  replicou Fay, com um suspiro.  Especialmente de mim. Mas eu no estava atrs dele, juro!
 No se aborrea com isso.
 Tem certeza que ele no vai ao baile?
 Absoluta.
Quando Abby, Calhoun e Fay entraram no majestoso edifcio, o baile j comeara. Jias faiscavam sob os imensos lustres de cristal, e a orquestra tocava com entusiasmo, embalando os pares que deslizavam sobre a pista iluminada. Fay escolhera um vestido longo de seda branca, preso a um dos ombros por um broche de esmeralda e brilhantes. Os cabelos presos num coque e o outro ombro nu conferiam-lhe elegncia e leveza.
Logo na entrada, Abby e Calhoun encontraram um casal amigo, e Fay, que tinha sede, resolveu deix-los ali e ir em busca de refresco. Onde encontrar um garom no meio daquela multido? Correu os olhos em tomo, caminhando distrada, e...
 Oh, desculpe  murmurou, armando seu melhor sorriso. Que morreu imediatamente.
 Outra vez?  cuspiu Donavan.  Por Deus, voc tem radar ou o qu?
Fay nem respondeu. Deu-lhe as costas e voltou para Abby, decidindo que no tinha mais sede nenhuma. Nada, nem mesmo gua pura, conseguiria naquele momento atravessar o n que se formara em sua garganta.
Percebendo a perturbao da amiga, Abby voltou-se em tempo de vislumbrar a silhueta macia e elegante que se afastava.
  Cus, querida, me perdoe, sim? Juro que eu no sabia que ele viria. Inacreditvel! At onde sei, J. D. odeia bailes. Bom, fique perto de ns por enquanto. Conosco voc est salva.
 No foi sua culpa, Abby  murmurou ela, recobrando o flego perdido.  Azares do destino, creio...
  Imbecil emproado!  sibilou a amiga.  Se ele fosse menos importante como cliente, eu iria at l para lhe dizer umas poucas e boas. Ah, l est nosso salvador em pessoa. Bart!
Um homem magro e louro virou-se ao chamado de Abby. Tinha os olhos azuis e travessos como os de um moleque prestes a aprontar uma traquinagem.
  Ora, que surpresa deliciosa!  exclamou ele, no se dando ao trabalho de esconder a admirao pela linda moa que acompanhava Abby.  As deusas gregas resolveram descer  terra hoje, pelo que vejo. Por favor, moa, reserve uma valsa para mim antes de voltar para o Olimpo.
 Esta  Fay York, a nova secretria de Justin e Calhoun  apresentou Abby, rindo.  Fay, este  Bartlett Markham, presidente da associao local de criadores.
 E um prazer, sr. Markham  disse ela, estendendo-lhe a mo.
 Bart, por favor.
 Bart  sorriu ela, enlevada com o olhar franco e admirativo.  Pelo visto, todos aqui tm o mesmo objetivo, no  mesmo? Gado, quero dizer.
  Eu cresci numa fazenda. Trabalho numa firma de contadores, mas meus pais ainda mantm uma grande criao de Santa Gertrudes.
 No entendo muito disso, mas estou aprendendo depressa.
 Bem, minha amiga vai ficar por sua conta, Bart  anunciou Abby.  Cuide bem dela. Principalmente, mantenha-a afastada de J. D. O homem pensa que ela quer la-lo a qualquer custo!
 Mesmo?  Bart voltou-se para Fay, um brilho divertido brincando nos olhos azuis.  Por que no tenta me laar em vez dele? Sou um partido muito mais atraente, em minha humilde opinio. Alm do mais, voc no precisa tomar injees preventivas antes de sair comigo.
Fay sorriu, deliciada com a brincadeira sutil. Bart declarara, de modo inequvoco, que para sair com Donavan ela teria de tomar injeo contra raiva...
 Vamos danar?  props ele.
 Com prazer.
Fay deixou-se conduzir para o centro da pista, onde os outros pares danavam um fox arrastado e dolente. Sabia exatamente onde J. D. Langley se achava, como se de fato possusse um radar, e fez questo de no olhar para seu lado.
De seu canto, Donavan seguia os movimentos graciosos e fluidos de Fay com os olhos, detestando mais do que nunca seu mais encarniado inimigo, Bartlett Markham. No gostava do modo como ele a segurava, nem dos sorrisos luminosos que ela lhe dirigia em resposta.
No que se importasse com ela, apressou-se a dizer para si mesmo. Fay significava encrenca, e ainda por cima era mais de dez anos mais nova que ele. No, no havia lugar para crianas em sua vida, apesar da atrao surpreendente que sentira naquela noite em San Moreno. Tinha plena conscincia de que fora rude e bruto com a moa, mas no vira outro modo de se livrar da poderosa fora que o arrastava at ela, como im incontrolvel.
Fay era etrea, frgil, linda. At o nome lhe lembrava fada. Uma criatura to meiga e delicada s poderia sofrer em suas mos rudes de capataz. E a reputao do pai agravava ainda mais sua situao. "Outro Langley caador de ricaas", diriam as lnguas maldosas. A esse simples pensamento, Donavan tinha nuseas.
E mais nuseas ainda tinha quando via as mos de Bart enlaando a cintura fina de Fay. Diabos, por que viera ao baile? Desgostoso, serviu-se de outra dose de usque.
 Diga a verdade. Voc est mesmo atrs de Donavan? - Fay sorriu e encarou com firmeza o par.
  Que pergunta! Lgico que no. Ele  que est com mania de grandeza, creio.
 Foi o que pensei. Tal pai, tal filho, j diz o sbio ditado.
 Como assim?
Bart obrigou-a a dar uma viravolta graciosa, recebendo-a de volta com um passo impecvel. Era excelente danarino, e no se fazia de rogado para demonstrar sua percia.
 Depois que a me de Donavan morreu, Rand Langley atolou-se em dvidas de toda a espcie, chegando ao ponto de quase perder a fazenda de gado. Minha tia era jovem, simples e tmida, meio feiosa. E muito rica tambm. Rand ento comeou a assedi-la abertamente, e ela, muito bobinha e inexperiente, acabou caindo nas malhas da seduo. Ficou grvida e, est claro, casou-se com ele. Minha tia adorava Rand. Beijava as pedras por onde ele passava, era uma paixo sem remdio. Pouco a pouco, porm, ela foi descobrindo a verdadeira razo que movera Rand a seduzi-la. Quando se convenceu, a coitada no conseguiu continuar a viver. E se matou.
 Meu Deus!  murmurou Fay, chocada.
 Rand Langley nem se deu ao trabalho de comparecer ao enterro. Devia estar celebrando em algum bar, creio. Morreu alguns anos mais tarde, e acredite em mim, ningum sentiu.
 Donavan no tem culpa dos atos do pai  arriscou ela, com timidez.
 O sangue  o mesmo  replicou Bart, como se dissesse a frase mais justa do inundo.  E voc  rica.
 Ele me detesta!
 Puro charme, minha querida. J. D. no perdoa nenhuma mulher rica que lhe atravesse o caminho.
  mesmo?  Fay comeou a se irritar.  E quantas ele j teve?
 A vida amorosa de Donavan no me interessa  foi a resposta seca e tensa.
"Se no interessa, como sabe tanto a respeito?", indagou-se ela em silncio.
 Vocs no devem ser grandes amigos, pelo visto.
 Ns discordamos em quase tudo, Fay, principalmente no que diz respeito s ridculas teorias de Donavan sobre criao de gado.  O riso de Bart, de repente, soou estridente e desagradvel aos ouvidos dela.  Voc tem razo, querida. Ns no somos, em definitivo, grandes amigos.
Depois dessa conversa, a animao de Fay diminuiu. Compreendia agora toda a situao com nitidez cristalina, e essa compreenso tirava-lhe metade do prazer. Contudo, no se recusou a danar nenhuma vez. Foi par de solteiros, casados e desquitados, todos elogiando-lhe a beleza e a elegncia.
Quando, muito mais tarde, os convidados comearam a se dispersar, Fay notou, surpreendida, que Donavan no fora embora. Continuava de p ao lado da pista, conversando com amigos, o eterno copo de usque nas mos.
A orquestra deu incio a uma msica lenta e apaixonada. A letra era bonita, e falava dos desencontros e desenganos de um amor impossvel. Sbito, Donavan surgiu do nada e arrebatou-a nos braos, levando-a para o meio da pista. Atnita, muda e feliz, Fay deixou-se flutuar novamente no mundo da fantasia. Era impressionante como se sentia bem nos braos de Donavan. Aquela, sim, era a sua casa.
Por fim, encontrou a voz e a serenidade.
 Essa no foi uma boa idia, Sr. J.D. Langley. Porque eu vou pensar que voc est me encorajando a ca-lo mais um pouco.
 No, esse perigo j passou. A estas alturas, seu interesse por mim diminuiu bastante, aposto. Bartlett Markham deve ter enchido seus ouvidos com minha histria, no foi assim?
Fay baixou o olhar. Por trs da camisa fina, os plos negros do peito de Donavan convidavam-na a encostar a cabea neles, a experimentar sua textura. Que devia ser muito, muito sedosa.
 , ele contou uma ou duas coisinhas, sim. - Donavan sacudiu-a de leve, sorrindo.
 Ei, que  que h? Est dura como uma tbua. Solte-se, vamos. Voc no corre perigo nenhum comigo, calma. Pelo menos no aqui, diante de meia Jacobsville.
Fay no ergueu a vista; apenas, por precauo, desviou-a do peito de Donavan.
 Voc j disse, com toda a clareza, o que pensa de mim. Se no me quer nos seus calcanhares, pode ao menos me explicar por que me convidou para danar? Por que, em nome dos cus?
Os olhos cinzentos fixaram-se nela por um longo momento.
 Voc no sabe?
Deus, os lbios dele estavam to prximos. E to longe.
 Acho que sei.  uma provocao a Bart.
  o que pensa?
 Bem, que mais pode ser? Escute, no quero ser usada como instrumento de vingana de ningum.
Os dedos de Donavan acariciaram-lhe o ombro nu, produzindo uma sensao deliciosa de calor e aconchego.
 No sou uma pessoa vingativa, Fay. E no quero ser acusado de seguir os passos de meu pai.
Havia uma nota angustiada na voz de Donavan. Fay fechou os olhos, inebriada pelo aroma masculino que lhe chegava s narinas.
 Ainda falta algum tempo para eu ficar rica  murmurou, assombrada com a prpria ousadia.  Por enquanto, no passo de uma simples secretria.
 Compreendo. E durante esse tempo voc ser de meu nvel. Nada de Mercedes, nada de tales de cheque, nada de manses ou iates.
  o que estou tentando dizer, sim.  Ela se aconchegou mais, entontecida.  Que tal alguns momentos de paixo louca e selvagem? Podemos ir at o vestirio, jogar algumas peles de raposa no cho e...
Dessa vez a risada de Donavan foi sincera, a primeira que ela ouvia. Um riso grave, que soou como alegre clarim.
 Eu fao parte da Associao Protetora de Animais.
 Mesmo?  daqueles que protestam contra experincias de laboratrio e jogam tinta em quem sai na rua com casacos de pele?
 Meu fanatismo no vai to longe  volveu ele, bem-humorado.
 Apenas acredito que os animais merecem ser tratados com respeito, ainda que sejam utilizados em experincias mdicas que podem salvar vidas humanas. Quanto aos casacos de pele, penso que uma lei proibindo o abate de animais seria mil vezes mais eficiente que um galo de tinta. Afinal, quem usa peles est compactuando com a matana de animaizinhos bonitos e inofensivos. Voc tem casaco de peles?
 No posso  foi a vez de Fay rir.  Sou alrgica. S de olhar para um, ganho pipocas no rosto.
Ele sorriu e fez um volteio, amparando-a com firmeza.
 Uma milionria sem casaco de peles... Que tragdia!
 Obrigada pela compreenso, mas tenho um timo casaco de veludo, e me contento com ele.
Fay colou-se de novo ao corpo quente e masculino. Uma compulso doce e estranha levava-a a provoc-lo, a tent-lo como podia. Sbito, Donavan apertou-lhe os quadris com fora, puxando-os para si quase com rudeza.
 Tome cuidado comigo, moa  murmurou, a voz rouca.  Voc est uma sereia dentro desse vestido, e meu corpo se desperta com mais facilidade do que imagina. Quer uma prova?
 No, obrigada  Fay afastou o corpo rapidamente.  Basta sua palavra.
  Ora, ora, o que temos agora? Voc enrubesceu mesmo ou eu estou vendo coisas?
 Aqui dentro est muito calor.
 Ah, sim, a mesma e velha desculpa  Donavan inclinou-se e encostou o rosto bem escanhoado na face escaldante de Fay, sussurrando.
  Que desperdcio para ns!
 Desperdcio? Por qu?
 Porque, minha querida  disse ele, mordiscando-lhe a pontinha da orelha  eu sou dinamite na cama.
 No diga  balbuciou Fay, num fio de voz.  Verdade?
A mo dele acariciou-lhe a nuca, acompanhando o ritmo dolente da msica.
-  o que dizem por a.
- No acha que est indo longe demais? Afinal, ainda ontem voc armou um escndalo s porque fui comer no mesmo restaurante que o seu...
- Tenho certeza que Bart j lhe explicou meu problema. Sendo rica, voc est riscada de minha agenda. Pobre, est na lista dos produtos de alto risco para mim, porque  bonita demais.
 Ento minha nica sada  plantar voc no meio do salo.
 Quer mesmo fazer isso?
O tom de Donavan, baixo e quente, derreteu-a por dentro. Devagar, ele a puxou para si, as coxas poderosas pressionando-a. Suas mos firmaram-lhe a cintura e obrigaram-na a colar o corpo contra o seu. Apesar das camadas de fazenda que os separavam, Fay pde senti-lo palpitante, estuante de virilidade e desejo. Era uma sensao maravilhosa e embriagadora.
  Gosta de comida chinesa?
Incapaz de falar, Fay assentiu com a cabea.
 Em Houston h um bom restaurante de estrada. Que acha de irmos at l na sexta-feira?
 Voc est me convidando para sair?! Voc?
 Por que no? No espere lagosta nem caviar. Ganho bem, mas no o suficiente para grandes luxos.
 No fale assim  pediu ela, magoada.  No sou desse tipo.
 , eu sei  respondeu Donavan, acariciando-lhe o queixo.   por isso que fica tudo mais difcil para mim. Pensa que me diverti tratando-a com grosseria? No h futuro para ns, pequenina.
Os olhos cinzentos e atormentados fitaram-na com uma luz diferente. Havia dor e melancolia neles, uma dor maior que o mundo. Mas o momento passou depressa, e Fay sentiu que ele j se arrependia de t-la convidado.
 Aceito seu convite  disse, mais que depressa.  E nada de beijos ao luar na volta, combinado? Como voc mesmo falou, no vale a pena comear algo que no podemos terminar.
 Dessa vez, acho que posso terminar.
 No. Posso arriscar meu estmago com voc, mas no meu corao.
 Quer dizer que se fizer amor comigo, seu corao estar em perigo?
 Precisamente. Alm do mais, no costumo dormir com ningum no primeiro encontro. Nem no segundo  juntou rapidamente.
Donavan pestanejou, e uma ruga quase imperceptvel se formou na testa morena. No admitia, nem para si mesmo, que a idia de Fay nos braos de outros o incomodava. Sem dvida ela possua uma legio de admiradores; talvez at fosse mais experiente em sexo do que ele prprio. Mas, de modo inexplicvel, a idia doa-lhe fundo na alma. Pela primeira vez na vida, ele se pegou preocupado com o passado amoroso de uma mulher, e essa descoberta desgostou-o profundamente.
 Donavan? Que houve?
 Nada.
 Ei, essa resposta  privilgio das mulheres.
 Nada disso, temos tanto direito a evasivas quanto vocs. Sexta-feira, ento. Vou busc-la s seis, est bem?
 Eu no moro mais com tio Henry...
 Sei onde voc mora  cortou ele, muito quieto.  Jantamos  moda chinesa primeiro, e depois voc poder me mostrar tudo o que sabe. Ser uma experincia e tanto...


Fay no conseguiu dormir naquela noite. As ltimas palavras de Donavan voltava-lhe  mente como fantasma, atormentando-a. Sentia em cada poro que se metera numa encrenca.
Queria-o mais que a prpria vida, e um encontro com ele seria o mesmo que achar o pote de ouro no fim do arco-ris. Mas, para ser honesta consigo mesma, Fay fingira ser algo que no era. E no sabia como deveria agir, caso Donavan resolvesse lev-la ao p da letra.
 Ei, menina, que  que h com voc?  perguntou Abby no dia seguinte, assim que bateu os olhos em Fay.  Que aconteceu?
 Donavan me convidou para sair.
 J. D.?! No me diga! E o preconceito contra mulheres ricas?
 Bom, eu contei a ele que vou continuar pobre por mais duas semanas. Acho que Donavan decidiu que por enquanto eu no represento perigo.
 Entendo.  A expresso de Abby denotava franca preocupao.  Querida, no quero parecer intrometida, mas J. D.  um mulherengo incorrigvel...
 Sei disso  atalhou Fay, com um sorriso apagado.  E no foi difcil perceber, acredite.
 Mas ele tambm  cavalheiro, l ao seu modo esquisito. Tome cuidado para no lhe dar corda demais, ou voc acaba se enforcando nela.
 Imagino.
 Bom, se isso servir de algum consolo, sei exatamente como se sente. Eu era louca por Calhoun, mas ele gostava de outro tipo de mulher, bem diferente do meu. Nosso caminho at o altar no foi muito florido.
 Ainda assim, ele  louco por voc.
- Ah, l isso ...  Abby riu, feliz.  Mas nem sempre foi desse modo.
- Donavan j me avisou mais de uma vez que no quer compromisso nenhum. Contudo, sair com ele para mim ...  como se eu chegasse pertinho do cu, entende?
- Mais do que pensa  suspirou a outra, lembrando-se do primeiro encontro com Calhoun.  Gosto de voc, Fay, e no quero v-la machucada. Cuide-se, garota.
Abby encaminhou-se para o gabinete do marido com uma ruga na testa. J. D. era conhecido em Jacobsville como solteiro inveterado, daqueles que tm horror de virgens e fogem s de ouvir mencionar a palavra casamento. E ela seria capaz de apostar a vida na inocncia de Fay. No minuto em que J. D. descobrisse isso, sumiria para sempre da vida dela.
Nos dias que se seguiram, Fay trabalhou como um autmato. Donavan no apareceu nem telefonou, fato que lhe dava uma incmoda sensao de insegurana. Quando a sexta-feira veio e passou em brancas nuvens, ela deixou o escritrio certa de que o to esperado encontro fora esquecido.
Arrastou-se at o apartamento sem vontade, preparando-se para sofrer mais uma decepo, quando o telefone tocou. Fay agarrou-se ao receptor como quem se agarra a uma bia salvadora.
 Al?
 Vou passar a daqui a uma hora. Voc no esqueceu?
 Claro que no  a voz dela estava calma, mas sua alma danava.  Como poderia? Sou louca por comida chinesa, ora essa!
 Hum. No gostei da ironia, mas entendi o recado. S se interessa pela comida, no  assim? At daqui a pouco, ento.
Fay voou para o quarto, livrando-se pelo caminho da saia e da blusa amarrotadas. A nica pea decente que possua para uma noite informal era um conjunto de seda pura, cuja fazenda parecia se liquefazer de to macia. S faltava uma etiqueta de luzes pisca-pisca, avisando: "produto caro". Fay desanimou. Com certeza Donavan trincaria os dentes de desprezo quando o visse. Mas, alm de jeans e vestidos longos, s lhe restava esse conjunto mesmo, pois seu guarda-roupa no era muito variado. Para contrabalanar a riqueza da seda, resolveu escolher uma blusa simples de algodo bege, alm de no usar jias nem maquiagem.
Quando se olhou ao espelho, suspirou. A seda verde-gua combinava com seus olhos, e o efeito final era discreto, mas algo lhe dizia que "ele" no gostaria. Se fosse convidada de novo, o jeito seria investir parte do salrio em roupas mais baratas, decidiu. "Se" fosse convidada.




CAPTULO IV


Bem como Fay temia, a expresso de Donavan se fechou em sombras quando seus olhos pousaram no elegante terninho de seda.
  um conjunto velho  gaguejou ela, incoerentemente. Donavan enfiou as mos no bolso do surrado casaco de couro. O terninho de seda contrastava de modo gritante com sua camisa branca, o jeans e as botas bem engraxadas.
 Voc est bonita  disse por fim.
 E luxuosa, no ?  perguntou ela, encabulada.  Desculpe.
 Por qu?
 Bem, eu no queria que voc pensasse que eu escolhi esta roupa de seda de propsito.
O sorriso de Donavan foi breve e seco.
 Tudo o que vou fazer  lev-la a um restaurante chins. Nenhum pedido de casamento vir junto com a sobremesa.
Fay corou outra vez.
 Sei disso.
 Ento para que se preocupar com sua aparncia?  perguntou ele, dando de ombros.  Uma coisa  sair com algum; outra, muito diferente,  assumir um compromisso srio. Olhe, vamos deixar isto bem claro antes de mais nada, Fay. Eu nem de leve admito a possibilidade de existir maior envolvimento entre ns. Mesmo que nos transformemos no casal mais quente do Texas debaixo dos lenis, ainda assim no existir compromisso.
Fay precisou usar de todo o seu poder de controle para no reagir quela provocao ostensiva.
 Obrigada, estou bem prevenida.
- timo - Donavan circunvagou o olhar, franzindo o sobrolho.
 Seu apartamento  bem simples, no?
- Foi o melhor que consegui com meu salrio  explicou ela, sorrindo.  No ligo muito para ele.  apenas um lugar para eu dormir e comer  noite.
- Henry no lhe d uma mesada?
- Tio Henry no  rico, e eu no quero pedir nada a ele. Mesmo porque, daqui a duas semanas, ele entregar meus documentos ao Sr. Holman e eu estarei livre dessa tutela.
Donavan no respondeu, mas de repente comeou a enxergar certos detalhes que antes lhe haviam passado despercebidos. Se Henry no era rico, como oferecia aquelas recepes grandiosas? Tendo o controle absoluto da fortuna de Fay, no lhe seria difcil transferir parte para sua conta bancria. Mas ela no parecia preocupada e, afinal de contas, o assunto no lhe dizia respeito. Talvez Fay, como muitas herdeiras que conhecera, no fizesse idia do valor do dinheiro.
De repente, percebeu que ficara em silncio durante mais tempo do que devia. Tirando as mos dos bolsos, aproximou-se e tomou as de Fay entre as suas.
 Vamos?  convidou, com um sorriso brilhante.
Fay nunca imaginara que o simples fato de estar de mos dadas com um homem poderia ser to excitante. Enquanto caminhavam, ela experimentava um prazer sensual no contato dos dedos quentes entrelaados aos seus. Era como deslizar entre nuvens, pensou.
Pararam diante de um Chevrolet verde-garrafa, cujo estado de conservao era bem melhor que o da caminhonete. Era esse, ento, o outro carro dele. Sbrio e simples, como o dono. Fay entrou e sentou-se, preferindo no fazer comentrios.
De seu lado, Donavan lutava bravamente para no sucumbir a sensaes bem semelhantes s dela. At agora no compreendia a razo de ter convidado Fay para esse jantar. Algo o impelira a faz-lo, algo que o assustava um pouco e o deixava surpreendido. Fay era delicada, apetitosa mesmo, cheia de contradies. Para Donavan, quanto mais difcil um quebra-cabea, maior o desafio; e assim era a personalidade de Fay. Um enigma. Que pretendia resolver depressa, mesmo que para isso tivesse de lev-la para a cama.
Com certeza, estava diante de uma moa com grande experincia sexual. Como seria o desempenho dos homens milionrios na cama? Aguado, no mnimo, a julgar pela falta de imaginao nas mesas de reunio.
Donavan sorriu diante da prpria intolerncia. Sabia que seu preconceito contra as pessoas ricas era produto direto da experincia do pai, e no ignorava que havia uma dose exagerada de frustrao e injustia no seu modo de julgar. Contudo, a atitude de Rand Langley deixara cicatrizes profundas em sua alma.
At hoje a lembrana do episdio o magoava. No tirava da cabea a figura pattica do pai correndo como doido atrs da feia herdeira, uma semana depois de ter enterrado a companheira de vinte anos. Donavan presenciara tudo nauseado e desgostoso, e por fim explodira numa briga monumental com o velho. Depois disso, deixara a fazenda e nunca mais falara com ele. Quando Rand morrera, comparecera ao enterro apenas para cumprir uma formalidade social, mas no derrubara uma nica lgrima.
Muito tempo se passou antes que Donavan, finalmente, soubesse com detalhes a razo do passo tresloucado do pai: a Fazenda Langley, que pertencia  famlia havia trs geraes, estava a um passo da falncia. Para no perd-la, Rand buscara a soluo mais fcil. Casara-se pelo dinheiro, a fim de que o filho pudesse herdar a propriedade livre de dvidas.
  Voc est muito calado hoje  a voz de Fay despertou-o das reminiscncias.  Arrependido de ter me convidado?
 No. Apenas dei um mergulho no passado.
 Lembrando o qu?
Ele acendeu um cigarro, os olhos pensativos fixos na estrada.
 Meu pai se desgraou por minha causa. Casou-se por dinheiro, para que a fazenda ficasse comigo e com meus filhos. Irnico, no acha? Porque nunca hei de me casar, justamente por causa do exemplo que ele me deu.
Fay cruzou as mos no colo. Respeitava a dor de Donavan, e o fato de ele lhe confidenciar assunto to pessoal pareceu-lhe um alto elogio.
 Se voc no tem filhos, para quem ir seu fazenda?
 Tenho um sobrinho de dez anos, Jeffrey, filho de minha irm.  uma histria comprida, Fay, e no quero aborrec-la.
 No, por favor, conte mais. Onde est sua irm?
 O pai de Jeffrey morreu num desastre. Lucy, minha irm, casou-se de novo, mas morreu logo depois. Jeffrey ficou com o padrasto, mas este resolveu se casar de novo, e por isso matriculou o garoto num colgio interno, no ms passado. Em resumo, meu sobrinho est sozinho e infeliz. E odeia o padrasto.
Donavan respirou fundo, o semblante carregado.
 Naquela noite em que nos encontramos no bar, eu tinha recebido uma carta de Jeffrey. O menino quer vir para Jacobsville morar comigo.
 Parece uma boa idia. Ele sacudiu a cabea.
 No h a menor chance, Fay. Meu cunhado e eu no nos damos bem, e  quase certo que ele no concorde em me dar a custdia do garoto.
  uma histria triste  disse Fay, com meiguice.  Jeffrey sente falta da me, com certeza.
- Nunca menciona o nome dela.
- Decerto porque sofre.
Houve um curto silncio. Depois, obedecendo a um impulso, ela acrescentou:
- Eu sofro com a falta de meus pais. Eles morreram num desastre de avio. No nos vamos com freqncia e no existia um relacionamento maravilhoso entre ns, mas mesmo assim... mesmo assim eu me sinto muito sozinha.
 Voc no morava com eles?
 Oficialmente, sim. O problema  que papai e mame adoravam viajar. No me levavam junto para no atrapalhar meus estudos, e eu acabei me acostumando a ficar sozinha em casa. Isto , sozinha  modo de dizer. Havia empregados e a governanta, alm de uma tia-av que gostava muito de mim, mas vivia na cama com enxaqueca. Para encurtar, tive uma infncia solitria. Principalmente nos feriados.
Fay no desviou a vista da estrada, embora sentisse um par de olhos curiosos estudando-a com ateno.
  Se um dia eu tiver filhos  disse, de repente  eles jamais sabero o que  passar o Natal sozinhos. Juro que no!
   comentou Donavan, pensativo.  H coisas que o dinheiro no pode comprar.
  Oh, uma lista interminvel. Comeando e acabando pelo amor. - Para aliviar a atmosfera carregada, ele riu.
 O amor tambm pode ser comprado, voc sabe.
 No concordo. Podemos comprar a iluso, o sexo. Mas uma simples sesso de cama no  amor de verdade.
Dessa vez o riso de Donavan saiu espontneo.
 Acho que tem razo, no  mesmo? Dizem que essa experincia  pouco satisfatria. Quanto a mim, no posso opinar, porque nunca tentei, mas creio que no teria nenhum prazer em desfrutar de um corpo pelo qual paguei alguns dlares.
  assim que eu penso tambm.
A tenso se dissolveu, e Fay viu-se mais relaxada e contente. Minutos depois, Donavan estacionava num ptio enfeitado com graciosas lanternas de papel.
 Chegamos, debutante. Espero que goste.
O restaurante, pequeno e aconchegante, oferecia msica suave e servio de primeira qualidade.
 Conte sobre seu emprego, Fay  disse ele, servindo ch de jasmim.  Que tal  ganhar a vida?
Os olhos verdes de Fay ganharam um brilho dourado.
  Confesso que estou adorando. Nunca soube o que era independncia, e a experincia  eletrizante mesmo. Eu havia me acomodado a receber ordens, e nem sabia mais o que era tomar uma deciso. Cheguei a transferir essa dependncia para tio Henry, imagine s! Por isso  que insisto em dizer que aquela noite no bar foi decisiva para mim. Voc me abriu os olhos, acredite. Fez-me ver que eu podia mudar, se quisesse. E eu no estava brincando quando lhe disse que voc tinha desempenhado um papel definitivo nessa mudana.
 E eu, pensando que voc tinha arrumado o emprego por minha causa!  Donavan sorriu, algo embaraado.  No  esnobao minha, Fay. J tinha acontecido antes.
 Eu sei  volveu ela, baixando a vista.  Voc no  feio e... e  um homem e tanto. Mas eu no tinha inteno de persegui-lo. Sou orgulhosa demais para isso,
O que provavelmente era a pura verdade. Donavan sorriu, apreciando a franqueza direta de Fay. Gostava tambm dos modos discretos, da elegncia sem alarde. No era uma mulher estonteante, mas bonita o suficiente para virar a cabea de qualquer um. E possua um corao generoso. De repente, ele se pegou imaginando se Jeffrey gostaria dela.
O jantar transcorreu em franca cordialidade. Conversaram sobre poltica, cinema, gado, ecologia. Comeram camares empanados e peixinhos diminutos que derretiam na boca. Acima de tudo, riram e brincaram sem que uma sombra de tenso estragasse a noite.
 Voc no me contou sobre seu tio  disse Donavan, j no caminho de volta.  Vocs se do bem?
 Mantemos uma relao polida. Tio Henry anda muito calado e nervoso nos ltimos dias, no sei por qu.
Henry Rollins calado? Henry Rollins nervoso? A estava uma novidade difcil de acreditar.
 Suponha que voc herde dois dlares e um pedido de desculpas de Henry. O que faria? - Fay soltou uma risada.
 Duvido que isso acontea.
 Mas e se acontecer?
Ela considerou o assunto durante alguns minutos.
 Seria um choque e tanto para mim, porque no estou acostumada a contar dinheiro nem a me privar de presentes. Mas acho que acabaria me habituando. O trabalho no me assusta.
Donavan, mais uma vez, apreciou a franqueza e a simplicidade da resposta.
 Para onde vamos?  indagou Fay, ao notar que ele desviara do caminho principal.
  Quero lhe mostrar minha fazenda  Donavan piscou um olho matreiro.  E meu avirio novo. Tem um feno cheiroso e fresquinho no cho...
Ela entendeu o recado, mas preferiu fingir ignorncia.
- Voc cria pintinhos? Galinhas?
- Tambm. De vez em quando gosto de ovos quentes pela manh.
Donavan no acrescentou que o avirio ajudava bastante nas despesas, principalmente na entressafra do gado.
- E a carne que voc come?
- Essa eu compro. Gosto demais de animais para abat-los. Mesa Blanca tem muito gado de corte, mas eu procuro no lidar com esse setor.
A imagem que Fay tinha de Donavan no combinava com o que ouvia. Um amigo dos animais com corao de ao era uma mistura bem pouco homognea.
  Voc tem ces?
 Pencas deles. E gatos. So tantos que s vezes, quando a populao aumenta, sou obrigado a distribuir alguns de presente.
 Por que no os solta, simplesmente? - Ele sorriu de leve.
 Porque na rua eles no seriam bem tratados. E voc, Fay, j teve um cachorrinho de estimao?
 No  volveu ela, tristonha.  Meus pais detestavam animais. Mame teria um chilique se encontrasse um gatinho no meio da moblia Lus 15...
Donavan riu alto.
 Pois eu prefiro um gato a uma poltrona de seda.
 Eu tambm, mil vezes!
Ele achou graa no fervor da resposta. Bom Deus, essa moa era bem diferente do que imaginava!
 Chegamos. Esse  o meu palcio, Fay.
Era um chal gracioso de madeira e pedra, erguido no meio de um jardim extremamente bem-cuidado. Sob os jorros prateados da lua, Fay divisou canteiros de flores variadas, rvores seculares, caminhos sinuosos de pedregulho orlados de lgrimas-da-noite.
 Meu Deus  murmurou ela, engasgada.  Que beleza!
 Obrigado.
  voc que trata do jardim?
 Claro. Ningum mais pe as mos em minhas plantas. Jardinagem  meu hobby preferido.
Transpuseram uma varanda coberta de hera e primavera, cujos cachos cascateavam, exuberantes, sobre o gradil de madeira. Fay imaginou Donavan sentado na cadeira de balano, observando o pr-do-sol naquele pedao de paraso, e teve inveja. De vez em quando um mugido cortava o silncio da noite.
 Voc tem gado aqui?
 Santa Gertrudes. Mas s para reproduo, no para abate.
 Ora, que surpresa!  comentou ela, s para provocar. Ele riu e abriu a porta.
A sala era ampla, decorada com sobriedade e bom gosto.
 Hum... Para um solteiro, voc  timo dono-de-casa.
 Obrigado, mas o crdito dessa vez no  meu,  da mulher de meu caseiro.
No mesmo instante, uma pontada de cime varou o corao de Fay. Donavan, que a observava, soltou uma risada gostosa.
  O nome dela  Dris. Tem cinqenta anos e adora o marido. Fay enrubesceu. - Ainda bem que ele no acendera as luzes ainda! Donavan girou o comutador e ela se adiantou, a fim de esconder o rubor.
 Cuidado...
Mas j era tarde. Uma bolinha fofa de l com dentes atacou-a no calcanhar, provocando um salto e um gritinho aflito.
 Deus do cu!  exclamou ela, rindo.  O que  isso? Um tigre em miniatura?
  Belze, meu gato.  filhote ainda.
 Belze?
 Diminutivo de Belzebu  explicou ele, com uma careta engraada.  Deu uma trabalheira danada ao nascer, e no parou at hoje de me dar dor de cabea. No imagina o que ele fez com minhas cortinas.
Fay abaixou-se e tomou-o no colo com cuidado. O animalzinho examinou-a com ar solene, os olhos imensos e doces orlados por uma faixa de plos negros.
  lindo!
 Tambm acho. Ei, cuidado! Ele gosta de seda, e vai acabar com sua roupa. Venha c, Belze.
Donavan esticou o brao para tir-lo do colo de Fay, mas esta recuou, surpresa com o comentrio.
 Deixe, no tem importncia. Gostei de Belze. - Ele parou, to surpreendido quanto ela.
 Esse terninho deve ter custado uma pequena fortuna  insistiu, ao cabo de alguns segundos.
E, tornando-lhe o bichano do colo, fechou-o no quarto, sem dar ateno aos protestos de Fay.
 Quer caf?
 Aceito, obrigada.
 Fique  vontade ento. Volto num minuto.
Fay tirou o casaco e dedicou-se a inspecionar a sala, cuja decorao era cm estilo rstico. Havia muito xadrez escocs, peas de lato polido e vigas de madeira. Gravuras de cavalos puro-sangue e ces de raa pendiam sobre a lareira de pedra bruta. Fay examinou as peas com interesse, detendo-se por fim diante da fotografia de um menino. Era bastante parecido com Donavan, exceto pelos olhos pretos e tristes.
-  Jeffrey.
Donavan encostara-se  soleira, aguardando que a gua fervesse, e mirava-a em silncio com seus olhos de diamante lquido.
  parecido com voc.
- Sim, porque Lucy se parecia comigo tambm. Mas os olhos dele so escuros, iguais aos do pai.
- Conte-me mais sobre Jeffrey  pediu ela.  Do que ele gosta?
- De artes marciais. O forte de meu sobrinho  o Tae Kwon Do.
 Tae...?
- Kwon Do.  uma espcie de jiu-jtsu, s que se baseia nos calcanhares. Essa arte veio da Coria h pouco tempo, embora seja antiga.
 Ah, eu j sei. No  aquela que foi includa nas ltimas Olimpadas?
Ele sorriu, admirado.
 Essa mesma. Jeff tem esperana de participar das Olimpadas de 96, em Atlanta, e por isso treina todos os dias.  um garoto esforado.
 O pessoal de Atlanta lutou com bravura para conseguir que esses Jogos se realizassem l. Tenho uma amiga estudante que se inscreveu na comisso organizadora. Ficou quase maluca, a coitada.
 Voc no tem muitas amigas em Jacobsville, no ?
 Tenho Abby Ballenger, que  tima companheira. E eu me dou muito bem com minhas colegas de escritrio.
 Eu quis dizer amigas de seu nvel social. - Fay reps a fotografia no lugar.
 Nunca tive. No gosto da conversa delas.
Donavan se aproximou devagar. Suas mos enlaaram-na pela cintura e puxaram-na com suavidade.
 Sobre o que elas conversam?  perguntou, beijando-a de leve no queixo.
 Dormir com homens  Fay deixou escapar uma risadinha nervosa.  Esse  o assunto principal. Alm de no me agradar, acho um suicdio sair por a e dormir com qualquer um. Basta escolher o parceiro errado e... e...
 , eu sei  murmurou ele.
Sua lngua deslizou pelo pescoo longo e acetinado, detendo-se na artria, onde ele sentiu o sangue de Fay se acelerar selvagemente sob seu loque. As mos dele buscaram os quadris macios, apertando-os de encontro aos seus.
 Donavan  ouviu-a sussurrar, num suspiro. Acariciou-lhe as costas em movimentos suaves e circulares, enquanto parte de seu crebro trabalhava com rapidez. Fay no agia como mulher experimentada, pelo menos no naquele momento, e isso o preocupava. Algo lhe dizia que ela era virgem, to pura quanto um recm-nascido. Deus, precisava descobrir se isso era verdade.
 Quero sua boca, Fay  murmurou, a voz enrouquecida de desejo.  Quero sentir seu gosto.
Ela ergueu a cabea, totalmente rendida. Os lbios se encontraram em meiga explorao, mesclada da exigente e imperiosa paixo que se avolumava, crescente e impetuosa. Ambos precisavam desse beijo e por ele ansiavam como as flores precisam do sol. Precisavam desse raro e nico sentimento de compartilhar e dar. Tocaram-se, buscaram-se, conheceram-se, numa troca maravilhosa de bem-querer, de ternura, de entendimento mtuo. Era como se nada mais existisse no mundo alm dos dois, como se a vida pertencesse somente a eles e a eles se entregasse, envolta num nimbo de luz dourada.
No era assim que ele queria, Deus, no assim! Donavan percebeu que seu tremendo poder de autocontrole o abandonara por completo. Mal conseguia raciocinar agora. Os beijos voltaram em carcias torturadas, despertando sensaes a um tempo delicadas e violentas.
Nunca antes Donavan sentira algo semelhante. Fay York atingira o mais fundo de seu mago e desvendara-lhe fontes de emoes e sentimentos que nem ele prprio pensava existir dentro de si. To intensos que o assustavam e maravilhavam ao mesmo tempo. Suas pernas comearam a tremer e seu corpo reagiu como jamais o fizera.
Fay gemeu alto, arrebatada. Via-se afundar num abismo de estrelas brilhantes que a atraam e ofuscavam. Abandonou-se com volpia, reconhecendo a pujante masculinidade de Donavan, explorando-lhe o peito pela camisa entreaberta, abrindo os lbios para receber a lngua exigente. Donavan presenteava-a com um prazer novo e enlouquecedor, e ela queria retribuir da mesma forma.
As mos morenas invadiram sua blusa e buscaram, sfregas, os seios delicados. O fecho do suti abriu-se como por encanto. O seios saltaram firmes, como que agradecidos pela sbita liberdade. E quando a boca de Donavan pousou sobre um deles, Fay gritou de prazer. Um prazer quase intolervel, que a arrastou para o xtase at ento desconhecido do desejo sexual.
 To linda  murmurou ele, erguendo o rosto.  Fay, voc faz meu corpo vibrar. Veja. Sinta!
E colou suas coxas s dela, para demonstrar com inequvoca eloquncia o que queria dizer. Fay buscou-lhe a boca, convidando-o para um beijo to ardente quanto as carcias que ele lhe fazia nos seios.
 Pequenina  A voz dele saiu entrecortada.  Sabe o que est para nos acontecer agora? Voc me quer?
- Quero, Donavan... Quero.
Ele se endireitou com dificuldade, todo o seu ser pedindo o corpo de Fay por inteiro, sem reservas. Como ela devia ser linda nua, bom Deus.
- Voc precisa se preparar antes?  indagou, mordiscando-lhe o lobo da orelha.  Est tomando plula?
Ela hesitou, sem saber ao certo como devia responder. Por fim, optou pela verdade.
 No.
A palavra caiu como bomba nos ouvidos de Donavan. "No." O que queria dizer, muito simplesmente, que poderia deix-la grvida. Grvida!
Foi uma ducha gelada. Ele a empurrou. No foi rude nem grosseiro, mas firme. Ainda ofegante, olhou-a em muda reprovao, os olhos claros ainda turvos de desejo. Minutos depois, deixava a sala e batia com violncia a porta da cozinha.
Fay desabou sobre o sof, recompondo-se como podia, as mos tremulas se recusando a acertar com tantos colchetes e botes. Foi preciso parar, recuperar o flego e ralhar consigo mesma uma dzia de vezes antes que pudesse se ajeitar de maneira razovel.
Quando Donavan voltou com uma bandeja nas mos, ela no teve coragem de encar-lo. Alm de envergonhada, tinha plena conscincia de que ainda arquejava e tremia da cabea aos ps.
No levantou a vista nem quando ele depositou uma xcara  sua frente, nem quando o sentiu sentar-se a seu lado. Lutando para segurar as lgrimas, apanhou a bebida quente, mas tremia tanto que a xcara comeou a danar perigosamente no pires.
Foi ento que a mo dele fechou-se sobre a sua, ajudando-a. Fay ergueu os olhos verdes, esperando uma exploso de ira. Mas Donavan ftava-a apenas com curiosidade, misturada a uma pitada de ternura.
 Obrigada  balbuciou, levando a xcara aos lbios.
Ele sorriu. Um sorriso de verdade, luminoso, o primeiro que ela via desde que o conhecera.
 Sempre s ordens... debutante.
 Eu... Oh, Donavan, desculpe...
 No, eu  que peo desculpas  disse ele, colocando um dedo sobre os lbios dela.  No devia ter ido to longe.
 Voc ficou to zangado naquela hora...
 Minha querida, eu estava doido para possuir voc. Senti um desejo desesperado, quase incontrolvel. Foi algo que chegou a me surpreender, de to intenso. E fui obrigado a parar no meio... Convenhamos, eu tinha minhas razes para me aborrecer, no acha?
Ela assentiu em silncio, enquanto o observava bebericar o caf.
 Por que voc ainda  virgem?  perguntou ele, de chofre.
A xcara adernou na mo de Fay, que conseguiu equilibr-la no ltimo instante.
 Que foi que disse?
 Voc me ouviu muito bem, moa. Nem fingir direito voc sabe! Mas no me provoque, porque no sou de ferro. Da prxima vez que eu a tocar, ser para valer.
 Por que no experimenta?  convidou ela, mais senhora de si.
 Um dia, quem sabe?  Os olhos de diamante brilharam com malcia.  Bem, pelo menos foi uma experincia fascinante e nova para mim. E voc, sua louquinha, no tem senso de autopreservao?
Fay fuzilou-o.
 Est se divertindo a minha custa?
 Muito, obrigado  Donavan recostou-se no sof, os olhos abertos fixos no teto.  Que seios maravilhosos, Deus. Cor de pr-do-sol no outono.
 Pare com isso, J. D. Langley  fungou ela, nervosa.  No  decente ficar relembrando meus... ha, o que aconteceu.
Uma sobrancelha se ergueu, gaiata.
 Estamos no sculo vinte.
 Maravilha. A vida  liberal, no h mais regras nem cdigos de moral. No admira que o mundo esteja virado de ponta-cabea.
Ele riu baixinho.
 De certo modo, concordo. Regras e normas de conduta at que podem ser muito proveitosas para a humanidade, se aplicadas de forma adequada. Acontece que as pessoas precisam aprender a renov-las de vez em quando. J ouviu falar nos Anos Selvagens? .
 J, foi na dcada de 20. Gim correndo soldo, mulheres fumando, doenas venreas grassando, promiscuidade...
 E tudo isso no significa nada para ns agora. A humanidade vive de ciclos, desde o Imprio Romano. Um perodo de orgia  seguido por outro de extrema austeridade, e assim vai indo.
 Esse retrato  bem desencorajador.
 Contudo, so precisamente as novidades, boas ou ms, que trazem mudanas ao mundo. Sem elas, nossa aldeia global estagnaria.
 Mudei de idia.  encorajador! - Ele riu.
 Voc me surpreende, Fay.  rica, desejvel, inteligente... e virgem! Cus, isso no combina. Estranho, muito estranho que tenha um senso moral to aguado.
 Ento eu devia ser lasciva e sensual s porque sou rica? E olhar com desprezo para meus parceiros de sexo? Ora, sr. Langley, isso  puro preconceito.  uma idia estereotipada, e agora  a minha vez de dizer que esteretipos no combinam com sua inteligncia.
  Tem toda a razo. Acaba de marcar um ponto brilhante, Fay York.
Seguiu-se um silncio comprido. Donavan endireitou o corpo e ftou-a com intensidade, os olhos claros semelhantes a dois lagos profundos.
- Deus! Voc me deixou endoidecido, Fay. Mas, de certo modo, estou contente por voc no ter tomado nenhuma plula.
- No foi essa a impresso que tive.
 Porque a frustrao foi grande demais na hora  explicou ele, com toda a simplicidade.  O que me fez parar foi exatamente a falta da plula. No tenho nenhum preservativo aqui para proteg-la contra a gravidez, e esse  um risco que eu no quero correr, sob nenhum pretexto.
Ela sorriu, envergonhada.
 Nem pensei nisso  confessou.
 Pois eu sim, e foi bom, porque evitei uma possvel encrenca. Por outro lado, sou quadrado demais para desonrar uma linda senhorita inocente. E, pode rir  vontade, mas  assim que eu sinto.
Com efeito, Fay ria at no mais poder.
 Pelo visto, estamos os dois deslocados no tempo e no espao. No h lugar para ns neste mundo maluco...
 Claro que h, doura. Num domingo desses vou lev-la  igreja e provar que no estamos to sozinhos como pensa.
 Eu... acho que gostaria mesmo de ir  igreja.  Fay ficou sria de repente.  Quando era pequena, gostava de ir com a governanta. Depois... depois no sei por que esqueci o costume.
 Pobre menina rica.
Fay ergueu a cabea com vivacidade, mas s encontrou carinho e compreenso na expresso de Donavan. Nesse momento, ela teve certeza de que poderia amar esse homem at a loucura. Se ao menos ele lhe desse uma chance...
  Bem, moa, est na hora de voltar para casa. E, de hoje em diante, cuidado com solteires ardentes e fazendas isoladas como esta. Combinado?
 Mas foi voc que me trouxe para c!
 Isso, ponha a culpa em mim.  sempre o homem o vilo da histria.  ele que conduz as inocentes senhoritas aos vcios do pecado... Agora, falando srio,  isso mesmo que acontece a maior parte das vezes.
 H casos em que sucede o contrrio.
 Qual! No existem homens inocentes, fique sabendo. 
 E padres, monges?
 Alguns  admitiu ele, entregando-lhe a bolsa.  Gosto muito de sua casa, Donavan.
 Eu tambm. Coincidncia, no?
Entraram no carro em silncio. Um silncio leve, em que ambos pareciam comungar com a noite estrelada.
Donavan deu a partida no motor e virou-se para fit-la.
 Pode ser que seja uma loucura rematada, Fay, mas eu sou corajoso. E voc, tem coragem?
 Co... coragem?
Ele a puxou para pertinho e emoldurou-lhe o rosto com ambas as mos. O beijo veio doce, meigo.
  Antigamente  sussurrou, soprando-lhe os cabelos  isto se chamava cortejar.
Muda de espanto, Fay limitou-se a fit-lo em silncio, os olhos grandes como dois pires de esmeralda.
  , moa, eu disse que no acreditava em casamento. Mas h sempre uma mulher capaz de dissolver as mais duras armaduras de um homem.  E sua boca buscou a dela mais uma vez.  Quero cuidar de Jeff, e se eu me casar, tenho boas chances de ficar com ele. Enquanto isso, eu e voc podemos enriquecer nossas vidas dando-nos um ao outro. Vamos comear pelo princpio querida. Passar bastante tempo juntos, conversar e nos conhecer a fundo. No sei no que vai dar, mas podemos tentar.
 Eu... eu sou rica  balbuciou ela.
 No faz mal. Posso conviver com isso.
Acariciou-lhe o queixo de leve, ruminando em silncio suas suspeitas. Tinha quase certeza de que Fay no herdaria fortuna nenhuma, fato que o deixava mais  vontade para pedir-lhe a mo. Quando recebesse a notcia, Fay ficaria s e perdida, mas ele estaria por perto para ampar-la. Era uma mulher doce, bonita e apaixonada, artigo no to fcil de encontrar como parecia. Jeff precisaria de um lar estvel. E ele... bem, ele a desejava. Casando-se, sua chance de assumir a presidncia do conselho subiria, embora esse fosse o ponto menos importante da histria toda.
Deixou para pensar nas possveis conseqncias de seu gesto mais tarde. Primeiro, queria montar um lar para Jeff.
Sorrindo, Donavan manobrou o carro.




CAPITULO V



Fay nunca pde se lembrar com clareza de como chegou ao escritrio no dia seguinte. Sentia-se to leve e estranha, que se surpreendia quando olhava para baixo e via os ps pousados no cho.
Donavan pedira-lhe a mo. Queria se casar com ela, Fay York, a mesma que ele acusara de caadora poucos dias antes. Que ironia!
Desde o comeo ele fizera questo de frisar: no queria saber de moas ricas. Por que mudara de idia to de repente? Fay sabia que fora honesta e no escondera nada. Contara-lhe que herdaria uma pequena fortuna dali a dias. E mesmo assim...
Havia Jeff,  verdade. Donavan precisava montar um lar a fim de obter a custdia do garoto e, de quebra, se tornar presidente do conselho, mas para isso no precisava de nenhuma herdeira. Bastava-lhe esticar a mo e apanhar uma das admiradoras, que, alis, deviam ser inmeras. Mistrio!
Mas havia muito trabalho esperando sobre sua mesa. Resoluta, Fay afastou os problemas pessoais e concentrou-se com afinco na pilha de formulrios que deveria entregar no fim do dia.
Na hora do almoo, a exuberante Abby foi buscar o marido para almoar e parou em frente  escrivaninha da amiga.
 Ei, bom dia! Voc est to absorvida no trabalho que nem me ouviu entrar. Que tal foi ontem?
 Maravilhoso!
 Mesmo?
Fay olhou em volta e baixou a voz, debruando-se sobre a mesa:
 Ele me convidou para sair de novo.
 J. D.?
 O prprio  riu Fay.  Por que tanto espanto? Se quer saber, ele se portou como um perfeito cavalheiro. E chegou at a propor um compromisso mais srio comigo.
 J. D.?  repetiu Abby, incrdula.
 Sim senhora. Voc sabia que ele tem um sobrinho e quer entrar com uma ao para obter a custdia do menino?
   verdade. O pobre garotinho tem passado um cortado com o padrasto, pelo que ouo contar. No sou grande f de J. D., mas sou forada a admitir que ele  timo tio e gosta bastante do sobrinho  Abby franziu a testa, pensativa.   por isso que ele est levando a srio esse namoro?
 Provavelmente...  Fay sorriu.  No sou to ingnua a ponto de acreditar que ele se apaixonou de repente por mim, minha amiga. Mas talvez um dia ele venha a me amar, quem sabe?
 , quem sabe?  volveu a outra, sonhadora, lembrando-se da prpria histria.  E sua herana?
 Ele diz que no se importa.
Abby preferiu no prolongar o assunto e pediu licena. Somente quando se viu sozinha com o marido no restaurante  que desabafou.
  Calhoun, estou aflita por causa de Fay  comeou.  Ontem J. D. convidou-a para sair e...
Contou tudo o que sabia, relatando inclusive os comentrios que ouvira da amiga. E rematou:
  J. D. disse a ela que no liga para a herana, mas voc sabe como ele costuma agir com moas ricas. Em minha opinio, Fay no ser exceo.
 Acho que sei o que est se passando na cabea de J. D., querida. Ele suspeita que Henry Rollins ande aprontando alguma travessura com o dinheiro de Fay. E, se voc quer saber, eu prprio tambm tenho minhas dvidas quanto  honestidade do caro tio Henry.  bem capaz que a fortuna de Fay no passe de algumas moedas a estas alturas.
  Coitadinha! O pior  que J. D. no a ama, eu sei que no.  mulherengo demais para sentir algo mais profundo do que simples atrao sexual.
Calhoun mordeu os lbios e dirigiu-lhe um sorriso embaraado.
  Talvez ele seja um mulherengo em fase de reforma  disse, buscando a mo pequena da mulher sobre a mesa.  Todos os homens passam por isso, querida. Minha felicidade  ter encontrado um porto seguro em voc, Abby.
 Voc  que foi um porto para mim, querido. Voc e os pequenos so a alegria de minha vida.
Dizendo isso, ela se debruou e beijou-o com ternura, alheia aos olhares espantados dos outros fregueses.
 E, ns somos felizes  concordou Calhoun.  E o melhor ainda est para vir. Somos um casal de sorte, meu bem.
 Muita. S espero que Fay encontre essa mesma paz um dia. 



Mas naquela noite Fay no saiu com Donavan, nem nas que se seguiram. Ele telefonou para avisar que faria uma viagem curta, sem dar maiores explicaes. Sua voz traa tenso e uma certa impacincia, como se estivesse com pressa de desligar.
Dois dias depois, Fay teve outro aborrecimento no escritrio de Barry Holman. Tio Henry, nervoso e deprimido, achava-se l quando ela chegou, e a expresso preocupada do advogado era eloqente o bastante para deix-la alerta.
 Sente-se, Fay  disse-lhe Holman.
 O senhor tem ms notcias para mim.
No era uma pergunta, mas simples constatao de um fato inexorvel. Os olhos verdes pulavam do tio para o advogado, ansiosos.
 Infelizmente sim, minha querida  confirmou Barry, a expresso grave.
Meia hora depois Fay se deparava com a aterradora realidade: no possua mais nenhum tosto.
  Sinto muito  murmurou Henry Rollins, quando o advogado terminou. Fiz o que pude para ajud-la. Tentei empurr-la para Sean porque achei que ele poderia salvar a situao, uma vez que  rico. Se vocs se casassem, seu baque no seria to grande como agora.
 Mas por que no me contou?
 No tive coragem. Seu pai gostava de especular, e tinha excelente tino para ganhar na Bolsa. Dessa vez, porm, ele moveu a pea errada e investiu toda a fortuna em aes de uma companhia que foi  falncia. Quando soube disso, corri para tentar vender as aes a qualquer preo, mas j no encontrei comprador. No sobrou nada, meu anjo.  Havia angstia e apreenso na voz de Henry.  Mas voc poder sempre vir morar comigo...
 Eu tenho um timo emprego, obrigada  atalhou Fay, lembrando-se instantaneamente que o emprego era temporrio.
 E tem seu Mercedes tambm  interveio Holman.  Esse  inteirinho seu, Fay, e vale bastante dinheiro. Posso cuidar da venda, se voc quiser. Com isso, voc ter um razovel capital inicial para abrir um pequeno negcio. E ainda dar para comprar um carro de menor valor.
 , faa isso  Fay pronunciava as palavras com dificuldade, como se estivesse no meio de um pesadelo  Amanh vou trazer os documentos do Mercedes.
 Muito bom. Agora s falta cumprir uma pequena formalidade e assinar alguns papis.
Fay assinou tudo, sem se dar conta do que fazia. Tinha as pernas bambas e seus dedos pareciam de chumbo. No fazia uma semana ainda, estava nos braos de Donavan sonhando com um futuro cor-de-rosa, a cabea fervilhando de planos. Imaginara comprar as terras ao lado da fazenda, a fim de ampli-la, e pensara at num pequeno lago artificial onde ambos poderiam criar patos, cisnes, marrecos... Tudo se esvara em fumaa. Mesmo Donavan parecia ter desertado de sua vida.
Quanto mais cismava, mais negro se lhe afigurava o futuro. Dvidas se acumulavam em sua mente, torturando-a. Que faria quando terminasse o contrato de trabalho? Qual teria sido o objetivo real de Donavan quando lhe propusera um possvel casamento?
A resposta era uma s: a custdia do sobrinho. Que ele no a amava, no havia sombra de dvida. Rejeitara-a vezes sem conta, chegara mesmo a trat-la com grosseria, porque no queria se envolver com mulheres ricas. E de repente, ao perceber que poderia ficar com o menino, tornara-se subitamente interessado. Mas o entusiasmo inicial esfriara, e agora ele se pusera arredio e distante, como que arrependido.
Plida e tristonha, Fay trabalhou com coragem pelo resto do dia, esforando-se para sorrir e fingir alegria.
Calhoun, que tinha esprito generoso e atento por natureza, no tardou a perceber o lamentvel estado da nova secretria e resolveu agir por conta prpria. Trancou-se no gabinete e ligou para Barry Holman.
 Escute, Holman, sei que por motivos ticos voc no pode me revelar muita coisa, mas meu objetivo  apenas ajudar. Fay no vai receber herana nenhuma, no  assim?
Do outro lado do fio no houve resposta, mas o silncio foi eloqente.
 Foi o que adivinhei  volveu Calhoun, devagar.  Pobre moa!
 Bem, se voc quer mesmo ajud-la, lembre-se que o emprego de Fay  temporrio. Esse fato deve estar corroendo a coitada por dentro como cido.
 J pensei nisso, meu velho, e decidi que estamos precisando de mais uma secretria efetiva. No h problema por esse lado. Maldito seja Henry Rollins!
  No foi culpa dele, e sim de um investimento mal colocado. Investiguei a histria minuciosamente, e de fato o erro foi do pai da moa. Azares do destino, eu diria. De qualquer modo,  uma tragdia para Fay, pois ela ficou sem nada, exceto o Mercedes. Mas preste ateno, Calhoun: voc nunca ouviu nenhuma palavra minha a esse respeito.
 Claro que no! Vou dizer apenas que o escritrio passou a funcionar muito melhor com a ajuda dela, o que, de resto,  verdade.
 Ela vai gostar de ouvir isso.
  bem merecido. Para quem nunca trabalhou na vida, o desempenho dela  surpreendente. Bem, at outro dia. E obrigado.
Calhoun desligou e ficou pensativo por alguns momentos, o cenho franzido, os dedos tamborilando sobre a escrivaninha. Por fim, discou outro nmero.
 Al.
- Pensei que voc estivesse viajando  comeou Calhoun.
  Cheguei h quinze minutos. Que houve? Algum problema com o gado?
- Com Fay York.
Houve um silncio mortal. Calhoun j estava a ponto de se arrepender de ter chamado o renitente solteiro quando este perguntou num tom que no escondia inquietao:
- Que aconteceu com ela? Algum acidente?
Calhoun sorriu e recostou-se na cadeira, mais aliviado. Havia preocupao genuna na voz de J. D, o que j era um bom comeo. Entretanto, ainda era possvel que ele estivesse preocupado em perder o casamento cora uma rica herdeira. Se assim fosse, Calhoun iria prestar um imenso favor a Fay naquele instante.
 Oua, vou lhe revelar um segredo. Algo que eu no devia saber, nem voc. Portanto, cuidado para no deixar escapar uma palavra sobre esta conversa.
 Estou ouvindo.
 Fay no recebeu nem um tosto. Parece que o pai, antes de morrer, tinha investido a fortuna em aes frias. Tudo o que ela herdou foi o Mercedes.
Donavan fez novo silncio comprido, enquanto Calhoun apertava o receptor entre os dedos, sentindo uma pena imensa de Fay. Mas se J, D. s queria o dinheiro dela, ento era melhor apressar a crise e...
Uma sonora gargalhada cortou-lhe os pensamentos sombrios.
 Ento ela est falida. Exatamente como eu desconfiava... No me interprete mal, Calhoun. Sinto pena de Fay, mas por outro lado estou realmente contente. Quero ver agora quem  que vai mexericar por a que o filho de Rand Langley est correndo atrs de outro ba cheio de ouro...
 Ento seu interesse  srio mesmo?
  to difcil de acreditar assim? Ora esta, Fay possui um corao de ouro  Donavan fez uma pausa e em seguida estragou a imagem de si prprio de maneira cruel e deliberada.  Ela  a madrasta ideal para Jeff.
 S por isso que voc se casaria com ela?
 Seja qual for a razo, voc no tem nada com isso, Ballenger  a rplica veio pronta e seca.  Se Fay quiser se casar comigo, a deciso  dela e somente dela.
 E se a moa estiver apaixonada?
 Fay no tem idade para se apaixonar por ningum  Donavan assumiu um tom descuidado.  Est entusiasmada comigo, concedo, mas no passa disso. Ela precisa de segurana, de companhia e de um teto. Tudo isso eu estou apto a dar para ela, em troca de Jeff. No acha que chega?
Calhoun deixou escapar um palavro que faria Abby corar.
 Voc  mais baixo do que eu pensava, J. D.
 E eu repito que voc no tem nada com isso. Meta-se com seus negcios que  melhor. Amanh cedo passo por a para verificar os relatrios de Mesa Blanca.
Dizendo isso, bateu o telefone com raiva.
Donavan sorveu um gole de caf sem lhe sentir o gosto. Gostava de Fay, e ela o atraa sexualmente como nenhuma outra mulher ainda o fizera. O simples fato de ser virgem excitava-lhe a masculinidade.
Mas o importante, no momento, era recuperar o filho de sua irm, arranc-lo do inferno em que o menino vivia desde que a me morrera. Precisara utilizar todo o seu poder de persuaso para convencer o venenoso cunhado a deixar Jeff passar com ele as frias da primavera. Uma vez conseguido isso, Donavan acreditava que o primeiro grande passo fora dado. J conversara com o advogado a respeito, e este lhe dera boas esperanas de ganhar a custdia em pouco tempo.
 Tem certeza que eu no vou atrapalhar, tio Don?  perguntou uma vozinha tmida.
Donavan virou-se para o sobrinho e fitou-o com afeio. Como era parecido com ele mesmo, quando tinha essa idade!
 Tenho, campeo. Ns vamos nos dar muito bem juntos.
 Podemos passear a cavalo amanh?
 Talvez, mas primeiro vamos ao escritrio da cidade. Quero apresent-lo a algum.
 Fay?
Ante a expresso surpreendida do tio, Jeff sorriu.
 Adivinhei, porque voc s falou nela durante a viagem. 
Aborrecido, Donavan acendeu um cigarro sem olhar para o garoto. No sabia que era to transparente sua ansiedade. Sentira falta de Fay, mas no gostava de admiti-lo nem para si mesmo, quanto mais para um pirralho que nada entendia da vida. Mentalmente, Donavan decidiu que precisaria tomar mais cuidado no futuro. Sempre fora dono absoluto do prprio nariz, e no pretendia mudar, mesmo que se casasse com Fay.
 Voc vai telefonar para ela, tio Don?
 No.
Bem que ele queria, mas preferiu no ceder ao que qualificou de impulso infantil. Agir como um adolescente apaixonado no o ajudaria a manter o controle da situao.
 Aqui  legal  disse Jeff, correndo os olhos em torno.  Mil vezes melhor que a escola militar! L a gente no pode fazer nada sem licena. Um horror!
- Ei, garoto, calma a. Eu tambm tenho algumas regras aqui na fazenda.
- Tudo bem, no me importo. Pelo menos voc gosta de mim. Meu padrasto me odeia, especialmente agora que "ela" ficou esperando um beb. O homem no gostava nem mesmo de mame, voc sabia?
A expresso de Donavan se endureceu. Conhecia bem a estroinice do cunhado, tendo ouvido histrias que o deixaram de estmago virado. Lucy se apaixonara e se casara com ele apesar de suas constantes advertncias. O casamento no modificara os hbitos do cunhado, que saa para noitadas alegres e largava a mulher sozinha em casa, s vezes durante dias a fio. Um simples caso de pneumonia fora o bastante para levar a desiludida e infeliz Lucy, que no encontrara outra maneira de escapar de uma vida atormentada.
 No sei o que mame viu nele  continuou o menino, os grandes olhos espelhando espanto doloroso.  O homem vive bebendo e nunca pra em casa. Aposto que ele j est enganando a... a outra.
"No seria de admirar" pensou Donavan, sombriamente. Afinal, quando Lucy morrera, o cunhado j passeava por todo o canto com aquela que agora era sua mulher.
  Vamos esquecer seu padrasto por enquanto, Jeff. Que tal uma partida de xadrez?
 Genial!


Fay sempre se perguntara, ao longo da vida, como enfrentaria a pobreza. Era, portanto, chegada a hora de verificar de perto se teria condies psicolgicas e fsicas para tanto. Se conseguisse conquistar um lugar ao sol atravs do prprio esforo, seria uma bonita vitria. Em boa hora Donavan a empurrara para o primeiro passo em busca da independncia! Se ainda estivesse vivendo com o tio, sua luta teria sido dez vezes pior.
Compreendia melhor a atitude do tio. Num impulso instintivo de superproteo paternal, ele tentara forar seu relacionamento com Sean, a fim de suavizar o golpe que a sobrinha sofreria quando soubesse que a herana no passava de um sonho. Organizara festas e recepes carssimas, pagando do prprio bolso, com o nico intuito de deslumbrar o possvel pretendente  mo de Fay. Pobre tio Henry! Contudo, preferia que ele no tivesse escondido o segredo por tanto tempo.
Deus, por onde comear?
  Nada de choro  ralhou-se baixinho, enquanto limpava uma lgrima solitria.  No se entregue, Fay York.
Bem, sempre havia o recurso de pedir a ajuda de tia Tessie, caso a situao se tornasse muito negra. Ambas continuavam grandes amigas, e Fay nutria um carinho especial pela velha solteirona que dela cuidara na infncia durante os perodos prolongados de ausncia dos pais. Nunca deixava passar em branco o aniversrio da tia, e sempre lhe enviava uma carta afetuosa. Na verdade, Fay talvez fosse a nica pessoa que gostava da tia peio que ela era, e no por causa do dinheiro.
Outro problema era encarar de frente um provvel rompimento com Donavan. Ele dissera e repetira inmeras vezes que no apreciava mulheres ricas, mas entre a teoria e a prtica o caminho era longo.
Com um suspiro melanclico, Fay forou-se a sair de seu estado letrgico e foi procurar os documentos do Mercedes. O tempo lhe diria quais eram as intenes verdadeiras de Donavan; de nada adiantava encher a cabea com mais preocupaes. Por ora, devia planejar com todo o cuidado o que faria com o dinheiro apurado na venda do carro.

Na manh seguinte, Fay trabalhava no escritrio quando foi surpreendida pela visita de Donavan. Seu corao disparou quando ele entrou, trazendo pela mo um garoto de cabelos to pretos quanto os dele.
 Este  Jeff  anunciou Donavan, ao invs de um bom-dia.  Jeff, esta  Fay York.
 Muito prazer  disse o menino, fitando-a com curiosidade. No havia timidez nos grandes olhos escuros, mas um ligeiro toque de tristeza.  Voc  bonita.
Ela sorriu, embaraada com a ingnua franqueza.
 Obrigada, Jeff.
 Meu tio gosta muito de voc, sabia?
 Jeff  cortou Donavan  por que no desce ao ptio para ver os animais? J est na hora de dar rao a eles.
  Oba, posso mesmo?
 Claro. Mas no chegue muito perto dos currais, porque os touros no gostam de visitas na hora do almoo.
O menino virou-se e saiu correndo, feliz da vida. A um vaqueiro que passava, Donavan pediu:
 Ei, Ted, pode ficar de olho no garoto?
 Com prazer, sr. Langley. - Donavan voltou-se para Fay.
 Meu sobrinho  impulsivo e tem o gnio meio esquentado. Preciso vigi-lo o tempo todo, seno ele acaba se machucando.
Embora sua expresso no indicasse nenhuma emoo, os olhos de diamante traam um brilho de contida excitao. A verdade  que a simples presena de Fay despertava-lhe os cinco sentidos, fato que Donavan aceitou com filosofia. Contudo, no aceitou com o mesmo conformismo outra realidade: acabara de descobrir, entre espantado e irritado, que sentira saudade dela. Muita saudade.
No entanto, Fay no lhe parecia nada receptiva naquela manh. Por baixo do seu sorriso, Donavan adivinhou tenso e receio.
- Fez boa viagem?  perguntou ela, para quebrar o silncio.
- Otima. Jeff e eu chegamos ontem  tarde.
O sorriso de Fay continuou no mesmo lugar, embora seu corao tivesse perdido o ritmo regular de repente. "Ontem  tarde", repetiu para si mesma. Ele chegara na tarde anterior e no lhe telefonara, nem sequer para dizer "ol, cheguei". Bem, pelo menos j sabia a quantas andava com relao a J. D. Langley.
 Seu sobrinho  uma criana bonita.
- Puxou pela me. Que tal almoar conosco? Jeff  louco por hambrgueres.
Fay virou o rosto para no se trair. Claro que adoraria ir com eles! Mas era melhor acabar com tudo de uma vez, antes que Donavan a ferisse mortalmente. Por enquanto, sofrera apenas escoriaes das quais ainda poderia se curar.
 Hoje no posso, obrigada.
 No?  Donavan pareceu surpreendido.  Por qu?
 Tenho de levar os documentos do Mercedes para meu advogado  Fay ergueu um par de olhos fulgurantes e desafiadores para encar-lo.  No tenho dinheiro nenhum, Donavan. Meus pais... Enfim, a herana no existia mais quando eles morreram. - Numa tentativa desesperada de manter intacto o orgulho, Fay ergueu um pouco mais o queixo.  Tudo o que me resta  o Mercedes, e eu pretendo vend-lo o quanto antes.
Donavan no gostou do tom agressivo. Dava-lhe a impresso de que Fay julgava que seu interesse se prendia ao dinheiro.
 Sua herana no tem a menor importncia.
 No?  rebateu ela, com ironia.  Ser mesmo? - Os olhos de Donavan escureceram.
  Ento voc acreditou em Bart. Pensa que sou to ganancioso como meu pai  disse, cerrando os punhos para controlar a raiva crescente. Doa-lhe fundo descobrir que Fay, a meiga Fay, julgava-o da mesma forma que os outros mexeriqueiros de Jacobsville.  Est bem, debutante. Se for isso o que pensa de mim, ento pegue seu reluzente Mercedes e v para o inferno com ele.
Dizendo isso, girou nos calcanhares e saiu em busca de Jeff. Fay quedou paralisada, fitando com olhos esgazeados a porta. Melhor assim, repetiu-se dezenas de vezes. Tudo o que fizera fora se proteger de sofrer mais ainda. Donavan no a amava. Mas como doa admitir essa triste verdade!
 Que houve, tio Don?  indagou Jeff, intrigado.
 Nada.
Mastigando com fria o charuto, Donavan caminhava a largas passadas para o carro, quase arrastando o menino, cujas perninhas tinham de correr para acompanh-lo.
 Voc no convidou Fay para almoar conosco?
 Ela est ocupada. Entre, vamos. 
Jeff fungou. 
- Adultos!
Bastou bater os olhos em cima de Fay para Calhoun compreender.
 Pelo que vejo, J. D. andou por aqui.
  Com o sobrinho, Jeff  respondeu ela, com um sorriso triste.
 Um menino encantador.
 Que aconteceu?
 Contei a ele que no havia mais herana nenhuma. Fui bastante agressiva, dei a entender que ele estava livre.  claro que Donavan no gostou  Fay suspirou fundo.  Foi embora.
Calhoun deixou escapar um assobio baixo.
 No sei se agiu direito, mocinha. J. D. tem uma espcie de trauma com tudo o que se relaciona a dinheiro. O pai dele...
 Conheo a histria toda  atalhou Fay com delicadeza.  Foi melhor assim. Donavan no gostava de mim. Se houve algum interesse, foi porque ele enxergou a possibilidade de obter a custdia do sobrinho. No sou boba, Calhoun. Sei que ele no me ama.
Calhoun gostaria de negar, de consol-la, de apagar o sofrimento calmo e conformado que lia no rosto plido. Mas Fay estava certa: Langley, na realidade, no agia com ela como um homem apaixonado.
  cedo ainda  disse por fim, na esperana de levantar-lhe o nimo.  D-lhe um tempo. J. D.  um solteiro solitrio, meio assim como Justin. Por isso  que eles se do to bem, creio. Particularmente, no sou grande admirador de J. D. E no  por sua causa, acredite!
 No sei se fiz bem. Afinal, Donavan  um grande cliente seu. Se acha que isso pode atrapalhar seus negcios, telefono e peo desculpas...?
 Nada disso  retorquiu Calhoun.  Deixe as coisas como esto, por enquanto. E bom que ele sinta o gosto da derrota, para variar.
  Quer dizer que geralmente ele sai vitorioso... Sim, faz sentido. Donavan deve ter partido alguns coraes por aqui.
 Ento cuide do seu, querida. Escute, lembra-se quando eu falei que este emprego seria temporrio, apenas at a volta de Nita?  Calhoun sentiu um aperto no corao quando a viu assentir em silncio.  Pois bem, andei verificando seu trabalho e devo confessar que estou surpreso com o resultado. Nita vai indo bem com Justin, mas eu gostaria de ter uma secretria s para mim. Que me diz de ser efetivada?
O rosto de Fay se iluminou.
  Cus,  srio mesmo?
 Serssimo. Alm disso  e Calhoun deu uma risadinha  Abby seria capaz de se divorciar de mim se eu a deixasse ir embora. Ela gosta muito de voc, Fay.
- E eu dela.  claro que aceito! Mas... e Nita? No se importa de trabalhar s para Justin?
- J perguntei, e ela s faltou beijar meus sapatos! Ora, para Nita vai ser um presente celestial trabalhar menos.
- Ento s me resta agradecer, Calhoun  O sorriso feliz de Fay era por si s to eloqente, que ele se sentiu gratificado.  No imagina como gosto deste escritrio! Alm disso, voc est me salvando de um aperto danado. Eu... no menti para Donavan, Calhoun. Minha herana j no existe mais.
Calhoun no pde dizer que j sabia. Limitou-se a sorrir e a estender-lhe a mo:
 Nesse caso, o proveito ser mtuo. Seja bem-vinda, minha nova secretria!
 Obrigada, Calhoun. Mesmo!
  O prazer  todo meu.
Fay voltou a ateno para o computador com renovado entusiasmo. Pelo menos possua um emprego definitivo, o que j era um grande passo. Quanto a Donavan... Bem, o jeito era tentar superar aquela dorzinha funda que lhe varava o peito a cada vez que pensava nele. Precisava se convencer de que tudo fora pelo melhor.
A raiva esfriara, mas a mgoa ficara. Ento, para Fay, ele no passava de um mercenrio, de um caador de dotes. De um crpula, em resumo.
Libertando os restos de fria que se acumulara, Donavan jogou fora o segundo charuto e acendeu o terceiro, enquanto Jeff o observava em silncio. As engrenagens do carro gemiam sob as violentas mudanas de marcha.
Donavan, porm, possua o dom precioso da autocrtica inteligente.  medida que a indignao se acalmava, sua cabea trabalhava, analisando com rigor a atitude de Fay. E, para ser sincero consigo mesmo, no havia como negar que ela tinha certa dose de razo. Afinal, tudo o que ele fizera fora dar-lhe beijos ardentes e dizer-lhe que precisava de algum para cuidar de Jeff.
Precisava encarar os fatos: ele no lhe dera nenhuma chance. E, para coroar sua falta de jeito, informara-a com a maior calma do mundo que chegara no dia anterior, sem se dar ao trabalho de ter-lhe telefonado. Deus, cometera um erro em cima do outro.
Acima de tudo, no dera a menor considerao aos sentimentos de Fay, que decerto sofria com a perda da herana. No s a herana, mas todo um estilo de vida! Fay teria de se adaptar  pobreza e ao enorme peso de novas responsabilidades. Ela, to nova, to ingnua, to sozinha no mundo. Necessitada de apoio e conforto, recebera dele apenas uma frase brutal.
 Nossa, que cara a sua!  Jeff no se conteve, assustado com a aparncia lamentvel do tio.  Tem certeza que est bem?
  No por enquanto  respondeu Donavan, dando uma guinada brusca na direo. O carro chiou na estrada, corcoveou e fez um giro sobre si mesmo, retomando o caminho da cidade.  Mas daqui a pouco acho que vou estar, campeo.
Consultou o relgio, impaciente. A essas horas, Fay j estaria voltando para casa.
No sabia ainda o que lhe diria, mas pensaria nisso pelo caminho.




CAPITULO VI


Enquanto se dirigia para casa, ao cabo de uma tarde estafante, Fay sentia-se deslocada e ridcula a bordo do reluzente Mercedes, smbolo de uma posio social que j no era sua. Ainda bem que o sr. Holman ia vend-lo! De agora em diante no haveria mais vestidos desenhados especialmente para ela, nem compras impulsivas, nem tapetes desenrolados a sua frente quando entrava num banco. Teria de administrar as despesas com cuidado, sempre de olho no final do ms. Era algo a que no estava acostumada, mas que de certo modo a fascinava. Um verdadeiro desafio, que poria  prova em definitivo sua capacidade de enfrentar problemas de cabea erguida.
Conseguiria, sim, tinha certeza. Apenas precisava de tempo.
Quando dobrou a esquina, avistou o carro de Donavan.
  No, meu Deus  murmurou baixinho, enquanto seu corao disparava desenfreado.  Outra briga no, por favor.
Desceu do Mercedes, contente por estar de jeans. Pelo menos ele no veria seus joelhos tremendo feito gelatina.
Donavan veio ao seu encontro e, embora esperasse v-la triste, surpreendeu-se com a palidez acentuada de Fay. Havia vestgios inequvocos de lgrimas em seu rosto, e os olhos verdes haviam ganhado uma sombra arroxeada. Devagar, ele tocou-lhe os lbios secos e descorados,
  Perdo, Fay  falou, sem prembulos.  Fui um grosseiro, bem sei. Em meu egosmo, nem pensei no quanto voc devia estar triste. Desculpe, sim?
Essa compreenso inesperada, aliada ao torvelinho de emoes que a perseguira no dia, fez com que as parcas defesas de Fay se desmoronassem. Lgrimas quentes rolaram livremente pelo seu rosto.
 Eu  que peo desculpas  soluou, enquanto tentava em vo secar as lgrimas.  Oh, Donavan, eu no falei por mal, acredite!
Enternecido diante de tanta fragilidade, Donavan alegrou-se por ter voltado. Sem dizer nada, apanhou-a no colo, pouco se importando com os olhares curiosos dos transeuntes, e levou-a para seu carro, enquanto beijava-lhe o rosto molhado.
Jeff pulou para o assento traseiro, piscando um olho para o tio.
 Mantenha a calma, minha senhora  anunciou Donavan, ao mesmo tempo em que a depositava carinhosamente sobre o banco estofado.  Isto  um seqestro.
 O que os meus vizinhos vo pensar?  perguntou ela, em meio aos soluos.
 Que voc est sendo seqestrada,  claro. Jeff, ns vamos levar a moa para casa. Ela ser obrigada a lavar, passar e cozinhar para ns. E, se tiver bons dotes domsticos, ser tambm obrigada a se casar comigo.
 Mas voc me mandou pegar o Mercedes e ir para o...
  No na frente do pequeno, madame  atalhou Donavan, com um sorriso brejeiro.  Ele no deve aprender essas frases.
Jeff rolou os olhos para cima.
  Cus, de que sculo voc , tio Don? J larguei os cueiros h muito tempo, se quer saber!
  Culpa da TV  retorquiu Donavan.  Muito sexo e violncia para meu gosto. Acho que vou quebrar o aparelho em pedacinhos...
 Mas eu no sei cozinhar  informou Fay, sorrindo entre as lgrimas.  Exceto omelete.
 Com bacon?
 Acho que sim...
 Ento est perfeito. Que me diz, Jeff?
  Genial!
Meia hora depois, o carro parava em frente  casa da fazenda. Jeff, aflito para assistir seu programa favorito, correu para dentro.
 Pode entrar, Fay  gritou ele.  Belze est no meu colo. Ele adora esse programa tambm.
  Gatos no tm capacidade de enxergar a TV, sr. Jeffrey  riu Donavan, escoltando Fay para a cozinha.
 Belze tem  retrucou o garoto, sem se atrapalhar.  Este gato  mgico.
Donavan fechou a porta que dava para a sala, abanando a cabea com indulgncia. Os rudos da televiso e os gritos entusiasmados de Jeff chegavam at eles, acompanhados dos miados de Belze.
  A gente acaba se acostumando com a barulheira  disse ele, aproximando-se. Seus olhos claros estudaram-na com ateno, fixando-se no coque que Fay fizera pela manh.  Por que voc prende seu cabelo?
Os dedos morenos retiraram os grampos com delicadeza, um por um, at que os cachos, libertos da priso, cascatearam sobre os ombros de Fay.
 Agora sim  murmurou.  Muito mais bonito... Muito mais a minha Fay.
- Eu disse coisas terrveis para voc, Donavan.
 E eu respondi com outras piores. Sabe do que mais? Foi simplesmente uma briguinha de amantes a que tivemos. Daquelas que todo o casal inventa, para depois a reconciliao ficar mais gostosa.
 Ns no somos amantes!  protestou ela.
 Mas seremos.
Fay corou at a raiz dos cabelos.
 Eu... no dou para isso.
Donavan curvou-se e beijou-a com doura. Seus braos possantes puxaram-na com firmeza, apertando-a contra si.
 Ora vamos, querida  sussurrou, a boca quase colada  dela.  No me obrigue a lutar...
Fay quis protestar, mas no pde. A lngua morna e exigente de Donavan penetrou-a, produzindo uma sensao vibrante e sensual em seu corpo amolecido.
 Assim, Fay, assim, meu bem...
Ele ergueu-a no ar e prendeu-a na parede com seu corpo macio, a fim de que Fay o sentisse por completo, enquanto sua lngua investia em seus lbios com paixo, simulando uma unio carnal que ela ainda desconhecia.
Quando a deps no solo suavemente, Fay ofegava, entontecida de desejo.
 Acho melhor voc se casar comigo  disse ele, com a voz enrouquecida.  No sei por quanto tempo mais posso proteg-la.
 Do qu?  perguntou ela, entorpecida.
 Preciso dizer, querida?
  um passo muito grande, Donavan.
 Sei disso. Mas ns estamos nos consumindo em desejo, no v? Quero que seja minha, Fay. No falo de bancos de trs de um carro, nem de um motelzinho qualquer de beira de estrada, mas de um lar de verdade.
 Sou pobre. No, no me olhe assim, por favor. A verdade  que vou me tornar uma carga pesada para voc. Posso trabalhar, mas minha contribuio ser pequena, e...
 E como voc acha que os outros casais se arranjam?  cortou ele, com doura.  Pelo amor de Deus, Fay, isso  o de menos! Eu tambm sou pobre, moa. Para mim, voc  muito mais desejvel agora, sem todo aquele dinheiro para nos atrapalhar. Sabe disso, no?
 Sei, Donavan. Agora sei. No devia ter sido to agressiva naquela hora, l no escritrio, mas... Deus, eu estava com tanto medo de que Voc no me quisesse mais!
Ele puxou-a de novo, fazendo-a sentir seu corpo estuante de masculinidade e desejo.
 Acha ainda que no a quero, pequenina?
A demonstrao foi to eloqente que Fay baixou a cabea, a fim de esconder o novo e intenso rubor que lhe invadiu as faces.
Donavan riu alto, forando-lhe o queixo com o dedo at que ela, vencida, ergueu de novo a cabea.
 Voc  um tesouro que eu tive a sorte de encontrar  murmurou ele, rindo ainda.  Como vai agir na noite de npcias? Vai desmaiar ou se trancar no banheiro? Aposto que nunca viu um homem nu na vida...
 Acho que vou acabar me acostumando  brincou ela.
  bom que acabe mesmo. Ento, Fay? Sim ou no?
Ela inspirou fundo. Recusava-se a analisar a situao por enquanto. No momento, tudo o que interessava era o desejo ardente que os consumia em brasa.
 Sim, Donavan. Quero me casar com voc.
Houve um silncio prolongado entre os dois. Da sala vinham os sons confusos da televiso e da torcida de Jeff que acompanhava o "mocinho". Mais ao longe, um cuco cantava seu canto solitrio, saudando a noite que principiava a descer em matizes de ametista. De repente, Donavan tomou-lhe a mo e beijou-a com ternura, os olhos de diamante lapidado emitindo uma luz nova que a envolveu em encantamento. Fosse como fosse, naquele momento no se via relutncia nem arrependimento neles. O corao de Fay desprendeu-se e voou alto, para alm das nuvens.
 Ei, campeo, venha c um minuto  chamou Donavan, abrindo a porta.  Fay e eu vamos nos casar, garoto!
Jeff entrou correndo, o rostinho iluminado com um sorriso que ia de orelha a orelha.
 Genial! Quando?
 Na semana que vem  respondeu Donavan com deciso. Seus olhos buscaram os de Fay, desafiando-a a contest-lo.
 Ento...  Via-se ansiedade e expectativa no rosto de Jeffrey.  Ento eu posso ficar para ver?
Donavan contemplou-o durante algum tempo,
 No que me toca, sobrinho, voc pode ficar at chegar  maioridade.
 E no que me toca tambm  juntou Fay.
Jeff baixou a vista, encabulado. Como o tio, o garoto tinha o dom de guardar os sentimentos para si mesmo, mas dessa vez seu embarao era visvel.
 Seria um prazer, tio Don. Mas... eu no vou atrapalhar?
 Nem um pouco. No teremos tempo para nenhuma lua-de-mel por enquanto, e alm disso voc precisa ser matriculado na escola de Jacobsville o quanto antes. Vou necessitar de muita lbia para convencer o diretor a aceit-lo no meio do ano, mas ainda assim pretendo tentar. - Jeff arregalou os olhos.
 Ento no vou ter de voltar  escola militar?
 No, a menos que voc decida de outra forma. J dei incio a uma ao para obter sua tutela, campeo.
 Puxa, tio Don!  O entusiasmo do garoto era to patente que Fay e Donavan se entreolharam sorrindo.  Nem sei o que dizer! Eu... puxa vida...
 Diga que concorda e volte para sua televiso. E feche a porta quando passar, que eu ainda no acabei de beijar Fay.
  Ah, sei  fez o garoto, com uma careta.  Aquele negcio sentimental que parece chiclete passando de um para o outro.
 Esse mesmo  concordou Donavan, rindo do tom rosado que tingiu as faces de Fay no mesmo instante.  Daqui a uns anos voc vai gostar desse tipo de chiclete.
 Duvido  murmurou Jeff, abaixando-se para pegar Belze.  No duro, tio Don, eu gostaria muito de ficar com voc. Mas meu padrasto no vai topar.
 Deixe que eu cuido disso. Por enquanto, volte para a sala. Eu chamo quando o jantar estiver pronto.
Quando se viram a ss, Fay voltou-se para Donavan. Seus olhos pareciam dois espelhos de esmeralda.
 Eu pensei que no tivesse mais nada na vida. Mas tendo voc, Donavan, tenho tudo.
Ele colocou as mos nos bolsos e estudou o bico dos sapatos, sem saber o que responder. No fundo, tinha dvidas que o atormentavam. Queria Jeff em casa e queria possuir o corpo jovem de Fay, mas receava especular mais adiante. Vivera uma vida sem conhecer o amor verdadeiro, e no tinha certeza sobre seus sentimentos em relao a ela.
 Disse algo que no devia?  perguntou Fay, preocupada. Donavan se aproximou e fitou-a com gravidade.
 No, de forma nenhuma. Mas no ser fcil para voc conviver comigo. Sou um solteiro empedernido, Fay, e estou longe de ser rico. No posso lhe dar vestidos de seda nem lev-la a restaurantes caros toda a semana...
 Nada disso me interessa  cortou ela, acariciando-lhe o queixo bem escanhoado.  Oh, meu Deus, eu nem acredito! Ficar com voc todos os dias, todas as horas, todos os minutos...  bom demais!
O corao de Donavan se enterneceu ante a idia de que Fay encarava o simples fato de estar a seu lado como uma bno. Inclinou-se para beij-la, colhendo-a entre os braos.
Fay enlaou-o pela cintura, abandonando-se com raro prazer s pequenas fascas que pulsavam em seu sangue. Amava esse homem como nunca supusera ser capaz de amar, e ele a queria para compartilhar toda uma vida a dois.
 Por Deus, Fay murmurou ele, arrebatado.  Espero ser homem o bastante para satisfaz-la na cama. Voc  to feminina, to desejvel e adorvel... E como beija, cus!
 Bem, tomara que tudo isso seja um elogio...
 E   volveu Donavan, lutando para manter o autocontrole. Fay o deixava confuso. Seus beijos nada tinham de inocentes, e ela sabia colar seu corpo ao dele de uma forma que lhe tirava o flego. Na cama, Fay o faria chegar ao extremo do arco-ris. Com certeza. Ela se fez sria de repente.
 Nunca passei a noite com ningum. Nunca soube o que  fazer amor, e...
 Eu sei, querida. Voc vai aprender comigo. E Fay... estou contente de ser seu professor.
 Eu tambm. Estou contente por ter... me conservado assim como sou para voc.
Ele mordiscou-lhe o lobo da orelha.
 Sabe pelo menos como ? Sabe como funciona uma unio sexual, Fay?
 Eu... acho que sim.
Pequeninas centelhas irisadas danaram nas pupilas de Donavan. Fay sentiu seu hlito de tabaco e caf, aspirando-o com volpia.
 Nunca fui delicado com mulher nenhuma  sussurrou ele, dando-lhe beijos curtos e doces  mas prometo que com voc ser diferente. S com voc, Fay.
 Donavan  ciciou ela, fechando os olhos.
Os beijos aumentaram de intensidade. Donavan sentia que o autocontrole o abandonava devagarinho, enquanto suas mos sfregas subiam e desciam pelo corpo adorvel e macio, criando uma tempestade turbilhante de paixo.
 No agento mais... Fay, Fay!
O gemido atormentado soou como um pedido de socorro e deu a ela a fora necessria para se desvencilhar. Fay se afastou com delicadeza, sentindo as pernas bambas e a respirao acelerada. E viu que algo semelhante se passava com Donavan, que inspirava profundamente, em busca de alento.
  como ter sede, no  mesmo?  comparou, com a voz entrecortada.  Por mais que se beba, nada satisfaz.
 Porque s bebemos alguns pingos  explicou ele, puxando a carteira de cigarros do bolso. Suas mos tremiam ligeiramente.  Voc  fogo, moa!
Ela o fitou amorosamente. Esse homem bonito ia ser seu marido. Perder a fortuna pareceu-lhe, de repente, um sacrifcio mnimo. Pois se tinha nas mos o maior tesouro do mundo!
 Mostre-me onde esto os ovos  pediu.  Vou preparar a melhor omelete que voc e Jeff j provaram. E com o tempo, prometo aprender a fazer outros pratos.
 No se preocupe com isso, querida. Eu sei cozinhar.
 Ento voc pode me ensinar!
 Posso. E outras coisas tambm... - Ela sorriu.
O jantar transcorreu num clima de quase euforia. Jeff riu, contou histrias e anedotas para os dois, fez pequenos animaizinhos com os guardanapos de papel e at ensaiou um ou dois nmeros de mgica, para grande assombro de Donavan.
No fim da noite, j em frente ao apartamento de Fay, Donavan comentou:
 Mal posso acreditar na transformao de Jeff. Saiu da crislida e virou borboleta neste pouco tempo em que ficou na fazenda. Perdeu o ar triste e at parece que ganhou corpo. Espantoso!
 Efeitos do amor  sentenciou Fay, risonha.  Como  o padrasto dele?
 No o conheo muito bem  Donavan deu de ombros.  Pelas cartas de Lucy, sei que  um homem ciumento, cheio de ressentimentos contra o garoto. Tratou-o muito mal enquanto minha irm vivia. J pode imaginar como o trata agora, no ?
 E ainda assim vai lutar para no lhe dar a custdia de Jeff?
 Tenho certeza que sim. Mas no se preocupe, querida. Sei apreciar uma boa briga.
 , j ouvi falar. - Donavan riu.
 Cresci lutando para me defender. No tive escolha, entende? Meu pai cuidou disso lindamente, alis. Por causa dele...  Os olhos cinzentos se escureceram de repente e cessaram de brilhar na noite estrelada.   outro problema que voc ter de enfrentar, se se casar comigo. Muitas pessoas no sabero que sua herana no existe mais, Fay. Haver muito falatrio desagradvel.
 No me importo. Enquanto falam de mim, esquecem-se de falar dos outros, e isso j me serve de consolo.
 Voc no se abate com facilidade, no  mesmo?  perguntou ele, entre surpreso e curioso.
 No depois que voc entrou em minha vida  volveu ela, brincando com os plos bastos e negros que saam da camisa de Donavan. Eram to macios como imaginara desde o princpio.  Estou feliz demais para me deixar abater. - Ele franziu a testa.
 Fay, eu vivi sozinho por muito tempo. Mesmo para Jeff no  fcil conviver comigo. Eu... acho que... no comeo as coisas podero ser duras para voc. Sou um homem difcil, querida.
 No faz mal. Desde que no me apaream mulheres nuas pela casa, acho que vou dar conta do recado.
Donavan riu baixinho.
 No existem outras, sossegue. Nos ltimos anos tenho me portado como um anjo  Ele se inclinou para beij-la de leve, recusando-se a permitir que o beijo ateasse nova fogueira em seu peito.  Durma bem, pequenina. Jeff e eu passamos pelo escritrio amanh na hora do almoo.
 Hambrgueres, aposto!
 Acertou. Deus, como gostaria que j estivssemos casados! Eu a carregaria para cima neste instante e passaria uma boa hora tirando sua roupa.
 No tenho tanta roupa assim  protestou ela, rindo.
  Voc no me entendeu, pequenina. Mas vai entender um dia. Logo, espero.
  Na primeira vez em que samos voc no quis me beijar  lembrou-se ela de repente.
 Faltou-me coragem. Queria tanto beij-la que me assustei.  Os dedos morenos acariciaram-lhe o queixo.  Achei que voc iria me deixar viciado, assim como as drogas fazem. E eu estava certo.
 Est a um tipo de vcio que me agrada  fez ela, risonha.
 E a mim tambm. Boa noite, doura. 
Em vo Fay aguardou na soleira. Donavan no se voltou para trs nem uma nica vez, nem mesmo quando deu a partida no carro. Jeff acenou-lhe alegremente, e ela retribuiu o aceno com um aperto no corao. Era como se Donavan estivesse habituado a agir de modo impulsivo e nunca parar para pensar no que fizera.
E ela, estaria dando o passo certo? Ia se casar com um homem cujo nico sentimento era desejo. Um desejo avassalador e poderoso, mas... apenas desejo.
Adormeceu preocupada, mas pela manh, assim que despertou, soube que nada mais importava na vida. No podia viver sem Donavan. Se era assim, o melhor a fazer seria tirar dessa certeza o melhor proveito, e batalhar para que um dia Donavan chegasse a am-la com igual intensidade.
  verdade mesmo?
Fay ergueu a cabea dos formulrios e sorriu. Abby entrara como um furaco e olhava-a com ar de quem acabara de ver um marciano.
 Se se refere ao meu casamento com J. D. Langley, sim.  a pura verdade.
 Voc  doida!  desabafou a outra, abanando-se freneticamente, embora no fizesse calor nenhum.  Tudo o que J. D. quer  a custdia de Jeff, querida. Sou sua amiga, e gosto de voc como se a conhecesse desde pequena, por isso sinto-me  vontade para dizer o que penso. Acha que ele a ama, Fay?
 Minha loucura no vai to longe. O fato  que eu estou apaixonada.  A afirmao foi feita com encantadora simplicidade.  E tenho esperana de que um dia ele me ame. Vivo dessa esperana, Abby.
 No  justo!
 Para mim . E para Jeff tambm. O garoto  vivo, esperto, cheio de energia. Ele perder tudo isso se continuar a depender do padrasto.
  Bom, quanto a isso, concordo  Abby sentou-se na beira da escrivaninha, soltando um suspiro comprido.  Tomara que voc saiba bem o que est fazendo. No consigo imaginar J. D. perdidamente apaixonado, se  que me entende. Alm disso, Calhoun me contou que ontem vocs tiveram um desentendimento.
  verdade. Fomos bastante agressivos um com o outro, mas mais tarde conseguimos nos explicar. Donavan foi maravilhoso comigo e me props casamento. No fui capaz de recusar, apesar de conhecer muito bem que razes o moveram. Abby, eu o amo muito.
Diante disso, a amiga se calou. Observando Fay, retrocedeu alguns anos no passado e viu-se no lugar dela, loucamente apaixonada e sonhando com algo que lhe parecia impossvel de alcanar. Naquele tempo, Abby teria cometido qualquer loucura para manter acesa a chama da esperana. E lutara com ferocidade pelo futuro, exatamente como Fay agia agora.
 Entendo o que quer dizer, querida  disse, afetuosamente.  E desejo, do fundo do corao, que voc se d bem.
 Obrigada, Abby.
Quando Donavan chegou, encontrou Fay sozinha no escritrio. Abby sara com Calhoun, e os demais funcionrios achavam-se em hora de folga.
 E Jeff?  perguntou ela, depois de receber um beijo.
 Foi ao cinema.  um menino esperto, aquele. Acha que noivos precisam ficar sozinhos de vez em quando. Sendo assim, que tal comprarmos os ingredientes para um belo piquenique ao lado do rio? Juro que vou achar um lugarzinho romntico e afastado, onde poderemos namorar  vontade.                                             
  Feito!  exclamou ela, feliz.  Mas tenho de esperar que o primeiro funcionrio volte do almoo, para no deixar o escritrio vazio.
Dez minutos depois, os dois atravessavam de mos dadas o grande ptio do edifcio.
 Estamos despertando a ateno, pequenina. O pessoal sabe que estamos noivos?
 Ao que parece, sim.
 Falatrios de cidade pequena so terrveis. Bom, para mim no faz diferena. E para voc?
 Nenhuma.
Pararam numa loja de frios e queijos, onde Donavan escolheu cuidadosamente o que havia de melhor, alm de refrigerantes e pes.
 Voc parece uma adolescente entusiasmada numa festa ao ar livre  disse Donavan, sorrindo.
Fay sentou-se e ajeitou a saia vaporosa sobre o gramado, atirando os cabelos para trs e fechando os olhos. Pouco depois, reclinou-se apoiada nos cotovelos, enquanto inspirava o ar puro da tarde.
 E assim que estou me sentindo agora. Ah, que paz!
 Prepare-se, porque essa paz no vai durar muito. Eu cuido disso... - No entendendo o que ele queria dizer, Fay arregalou os olhos de espanto.
Donavan esticara-se por cima dela, cobrindo-a inteiramente com seu corpo macio. Seus olhos lquidos pareciam mais claros, e fitavam-na  com uma intensidade que a fez estremecer. Devagar, ele se apoiou tambm nos cotovelos, deixando que parte de seu peso se transferisse para Fay.
 Esta  uma boa ocasio para iniciar nossas aulas  sussurrou. Delicadamente, moveu os quadris para a frente, de forma a amoldar-se aos dela. Foi o bastante para sua respirao se tornar mais acelerada. Fay entreabriu os lbios, arrebatada pela transformao que pressentiu sob o jeans dele.
 H sculos atrs, quando eu era um adolescente ardoroso, isto era uma rotina para mim, Fay. Hoje est sendo uma surpresa mais do que maravilhosa. Gosto do modo como meu corpo reage ao seu.
 Ele no... reage mais dessa forma com outras mulheres?
 S com voc, ao que tudo indica. Devo estar ficando velho. Ou isso, ou o fato de eu estar com uma virgem me rejuvenesce...
Ela no pde deixar de rir. Donavan aproveitou o momento e colou sua boca  dela, penetrando-a suavemente com a lngua, enquanto sua perna separava as dela sobre a gaze vaporosa.
 No temos muito tempo para namoro de mos dadas  ciciou ele, seu hlito mesclando-se com a brisa.  E ns devemos nos conhecer fisicamente antes de nos casar. Isso facilitar nosso relacionamento sexual, Fay.
 Mas eu nunca fiz nada parecido  volveu ela, nervosa.
 Nunca chegou a esse ponto?
 No. Meus pais mantinham uma vigilncia severa quando estavam em casa. Quando viajavam, deixavam-me com uma tia muito boazinha, mas igualmente severa.
 Talvez eles tivessem razo  rebateu Donavan, com calma.  Mas ns vamos nos casar. Um dia, eu vou colocar uma sementezinha bem no fundo de seu ventre, e voc h de gerar meu filho.
Essas palavras provocaram uma reao em Fay. Ela abriu muito os olhos e corou, fitando-o com espanto.
 Voc ficou excitada s de ouvir, no foi? Sim, estou vendo, nem precisa responder. Deus, que seios lindos voc tem, Fay.
Dessa vez ela ficou escarlate. Donavan riu, encantado.
 No devia provoc-la tanto, querida, mas eu adoro quando voc fica assim vermelhinha. E algo a que no consigo resistir. Muitas outras coisas em voc so irresistveis... como isto, por exemplo...
Unindo o gesto  palavra, Donavan se debruou e colocou a boca aberta sobre o seio intumescido de Fay.





CAPITULO VII


Se Fay tivesse voado naquele instante para perto do sol, a sensao de calor no teria sido to intensa. Seu corpo pareceu explodir num vulco de lava incandescente, tal a fora da emoo que a invadiu no minuto em que a boca de Donavan envolveu-lhe o seio. Sob a fazenda vaporosa, a lngua quente traava caminhos cm espirais de fogo e paixo, entorpecendo-a.
 Mais, Donavan... mais...
Alucinado de desejo, ele desabotoou a blusa vaporosa que os separava e buscou sofregamente a pele acetinada com as mos, com os olhos, com a boca. Fay entregou-se por completo ao xtase de ser tocada, apertando-o contra si e murmurando palavras desconexas. Nenhum pensamento de protesto cruzou sua mente atordoada; s se alimentava dos beijos febris, da quente sensualidade das mos sobre sua pele nua.
 Voc  linda, Fay  murmurou ele, embevecido.  Seus seios...
 Quero ser sua, Donavan.
 E eu quero ser seu.
 Agora, aqui.
Ele sacudiu a cabea, lutando para recuperar a sanidade.
 No. Agora no. Ainda no nos casamos, pequenina.
 No importa  Fay agora chorava, o corpo inteiro clamando pelo sexo.
 Importa, sim.
Delicadamente, mas com firmeza, Donavan soltou-se e ajeitou a blusa no lugar, brigando consigo mesmo para desviar a vista dos seios magnficos que pareciam chorar sua priso. Depois sentou-se na grama e embailou-a no colo, murmurando palavras de conforto e carinho, as mos a cariciando-lhe os cabelos macios que cheiravam a jasmim.
  Sou um homem de sorte, Fay  disse, quando finalmente o choro sentido cessou.  De muita sorte.
 Engana-se, Donavan. Eu  que tive a sorte de encontr-lo.
Ele a fitou com ternura, os olhos de prata fundindo-se no mar de esmeralda.
 Ns vamos dar um passo importante na vida. Pelo nosso bem, e pelo de Jeff, espero que seja o passo correto.
 Ser, Donavan.
De alguma forma, Fay tinha absoluta segurana do que dizia. Mas no escapou  sua percepo que Donavan no partilhava a mesma certeza.
A semana seguinte voou como num passe de mgica. Fay intercalava os minutos livres entre Donavan e as compras febris com Abby, nos preparativos para o grande dia. Depois de muito hesitar, ela acabou optando por um vestido de sbria elegncia, cuja nica riqueza residia, exatamente, na simplicidade. Era um conjunto curto cinza-prola, de corte reto. Fiel a seus novos princpios, ela escolheu essa cor porque mais tarde as duas peas combinariam bem com qualquer outra de seu guarda-roupa.
A cerimnia teve lugar na singela igreja local, da qual Donavan era membro. Metade da populao de Jacobsville compareceu ao casamento e fez questo de apresentar seus cumprimentos ao jovem par, pois a essas alturas todos j sabiam que Fay perdera a herana. At Bart, o antiptico meio-primo de Donavan, mostrou-se surpreendentemente polido e atencioso.
Naquela tarde, Jeff foi para a casa dos Ballenger, onde permaneceria hospedado durante a curta ausncia do tio. Seria uma lua-de-mel de dois dias apenas. Fay e Donavan seguiram viagem at San Antnio, jantaram a beira do rio e apreciaram o espetculo encantador dos mariachis, seresteiros mexicanos que passavam em canoas lentas, tocando suas msicas tpicas e exibindo com orgulho chapus de abas imensas.
 No h lugar mais bonito no mundo  suspirou Fay, contemplando o marido do outro lado da mesa.
Marido. Seu marido...
Donavan sorriu, bonito como nunca dentro do temo cinza que usara no casamento.
 Isto  bem diferente de Nice ou St. Tropez. No est desapontada?
 Nem um pouco. E espero saber torn-lo to feliz quanto me sinto neste momento.
Donavan engoliu o ltimo pedao de torta e fitou-a com um brilho guloso nos olhos.
  Que tal subirmos ao nosso quarto agora? Estou louco para ver quantas vezes voc vai enrubescer antes de eu lhe mostrar o que  fazer amor.
Fay sentiu o corao subir-lhe  boca.
 Tudo bem  assentiu, envergonhada.
Mal teve coragem de erguer os olhos enquanto Donavan pagava a conta e a escoltava rumo ao hotel.
 Est assustada, Fay?
 Um pouco. No gostaria de desapont-lo, Donavan. Sei que voc tem muita experincia e...
 Nunca me casei antes, lembra-se? Nem tive de dar aulas de amor a uma mulher linda como voc.  Os olhos lmpidos fitaram-na com sbita seriedade.  Vou tentar no machuc-la muito, querida,
 No estou preocupada com... isso.
Quando entraram no quarto, Fay esticou a mo para acender a luz, mas o marido deteve-a.
 Ser mais fcil para voc no escuro  disse ele, com gentileza, puxando-a para si.  No quero que me veja nu por enquanto.
 Voc tem cicatrizes?  riu ela, nervosa, tentando fazer graa.
 No. Mais tarde voc entender melhor o que quero dizer. Por enquanto...  Ele tomou-a no colo para deposit-la carinhosamente na cama.  ...vamos aproveitar estes momentos. Quero que voc se lembre deles com alegria at o fim da vida.
Fremente de expectativa, Fay deixou-se despir em silncio, enquanto Donavan oferecia-lhe amostras do que estava para vir. A cada boto, a cada colchete desprendido, ele a beijava e acariciava, a fim de aliviar-lhe a tenso. Entremeava os beijos com palavras gentis, at desnud-la por completo. Ento esticou-se sobre ela, ainda vestido. Seus olhos fulguravam na penumbra quando ele tomou-lhe o rosto entre as mos.
 Voc  linda... E vai ser minha! Minha Fay...
Seus lbios se aninharam nos dela, ao passo que sua mo comeou a massagear-lhe os seios trgidos, fazendo-a gemer de prazer. Dos seios a mo foi para o ventre macio, e de l para mais baixo, em busca dos plos sedosos do pbis.
 No se assuste, pequenina  sussurrou ele, tocando-a pela primeira vez nos pontos mais ntimos.  Relaxe e sinta meu toque. Sinta meu desejo. E me deseje com a mesma intensidade. Fay, oh, Fay...
Devagar, com todo o cuidado, ele avanou mais um pouco com o dedo, sempre tateando. E foi mais fundo, mais fundo. Porm Fay, apesar das precaues do marido, deixou escapar um gemido doloroso.
 Deus, esta no ser a melhor noite de sua vida, pequenina. Escute, no prefere que eu espere at que um mdico faa esse servio?  A expresso de Donavan denotava compreenso.  No quero assust-la, mas esta... esta barreira no ser fcil de romper. Voc sabe que eu preciso transp-la a fim de lhe dar prazer, no sabe?
Fay engoliu em seco.
  Sei. Mas um mdico...? Prefiro que seja com voc. Vai doer muito?
 Um pouquinho, com toda a certeza, meu bem.
Donavan deitou-se de costas e puxou-a para perto, agoniado de desejo. Sua vontade era mandar os cuidados para o inferno e saciar o corpo faminto, mas no desejava mago-la. Acima de tudo, no queria assust-la.
 Eu no sabia, Donavan. Nunca tive problemas de sade, e nem pensei em fazer exame pr-nupcial... Oh, meu Deus, acho que estraguei tudo!
 Nem diga isso, bobinha.
Os braos possantes envolveram-na mais uma vez, protetores e confortantes. Sem pressa, fazendo uso de seu formidvel poder de autocontrole, Donavan retomou as carcias interrompidas, at alcanar o tringulo sedoso do pbis. Dessa vez, no entanto, seus dedos apenas a tocaram de leve, em movimentos rotatrios, to suaves e sensuais que Fay comeou a se derreter por dentro. Quando se deu conta do que estava para acontecer, ela arquejou e tentou puxar-lhe a mo, mas j era tarde. O prazer chegou de surpresa, ofuscando-a, fazendo-a arquear o corpo e gemer baixinho.
Algum tempo depois, ele se ergueu da cama e acendeu o abajur. A viso do corpo amolecido da mulher, dos seios empinados, da saciedade que lia nos olhos verdes, deixou-o satisfeito. Seu corpo tremia de desejo ainda, mas ele dera prazer a Fay.
 Nem  preciso dizer que gostou da experincia, pequenina. Eu tambm gostei. E quero mais...
Enquanto falava, Donavan comeou a se despir.
Fay contemplava-o com visvel encantamento. Donavan pareceu-lhe um deus romano, grande e poderoso, a pele bronzeada do dorso coberta por uma penugem tnue e negra. Quando ele tirou a ltima pea e se voltou, Fay prendeu a respirao, incapaz de desviar a vista. Mesmo em seus sonhos mais erticos, jamais vira tanta pujana masculina. Estava, efetivamente, diante de um deus romano.
Ele se ajoelhou na cama, os olhos brilhando de desejo insatisfeito.
  a minha vez, pequenina  disse, deitando-se sobre ela com mil cuidados.  Quero receber o que lhe dei.
  Oh, sim, por favor! Ensine-me, Donavan...!
As bocas se buscaram com sofreguido apaixonada. E, nas lies que se seguiram, Fay aprendeu a banir timidez, receios e inibies. Quando ele gritou alto pela segunda vez, o corpo de deus erguendo-se no espasmo supremo e depois tombando exaurido, Fay sorriu de felicidade. E adormeceu nos braos do marido.
Voltaram na manh seguinte para casa. Donavan justificou a deciso secamente, afirmando que no havia razo para ficarem brincando  quando eram os mdicos que resolveriam de uma vez por todas a situao. Obediente, Fay submeteu-se a uma pequena cirurgia na segunda-feira pela manh, embora experimentasse um certo embarao na hora de explicar ao mdico seu problema. O doutor mostrou-se comreensivo.
 Seu marido foi delicado e tomou a deciso correta, acredite. Se ele tivesse sido impaciente, a senhora ainda estaria sofrendo.
Trs dias depois, sentindo-se bem disposta e restabelecida da interveno, Fay resolveu que proporcionaria uma noite inesquecvel para o marido. Pediu a Abby que ficasse com Jeff, comprou uma camisola que parecia uma nuvem e colocou uma garrafa de champanhe no congelador. Naquela tarde, ela pedira licena a Calhoun para ficar em casa e gastara horas diante do fogo, preparando uma ceia especial.
Pouco antes de Donavan chegar, Fay inspecionou-se com ansiedade diante do espelho. Pusera o vestido mais atraente que tinha, um longo de cetim preto com uma fenda comprida ao longo das pernas e decote generoso. Esse vestido ficava bem com um coque elaborado, mas ela deixara os cabelos soltos, do jeito que o marido apreciava.
 Nada mau, nada mau  disse baixinho, sorrindo para a prpria imagem.
Nesse instante, ouviu o ronco de um motor se aproximando. Fay perfumou-se rapidamente e voou para baixo, a fim de acender as velas sobre a mesa. O rudo da porta batendo com violncia sobressaltou-a. Ser que Donavan tivera algum problema no trabalho? Bem, fosse como fosse, ela saberia como solucion-lo.
Com o corao aos saltos, Fay foi para a sala. Mas seu sorriso morreu no mesmo instante, diante da expresso carregada de fria do marido.
 Voc no me contou que tinha uma tia rica. Rica o bastante para comprar metade deste maldito pas!
Fay precisou de alguns instantes para se situar.
 Ah, voc se refere  tia Tessie? Bem,  que...
Mas parou, assustada. Nunca vira Donavan naquele estado, e isso a punha nervosa.
 Henry Rollins ligou para meu escritrio h alguns minutos.  Ele contraa as mandbulas, num visvel esforo para se controlar.  E me pediu para transmitir as boas novas para voc, Fay. Boas novas, que ironia! Sua tia morreu ontem  noite e deixou tudo para voc. Satisfeita?
Fay caiu pesadamente sobre o sof, branca como cal. Agora entendia a sbita tempestade que lia nos olhos atormentados de Donavan.
 Tia Tessie morta? Mas eu recebi uma carta dela ainda na semana passada. No percebi nenhum sinal...
 Voc no me contou nada!  acusou ele.  Por qu, em nome dos cus?
 No me lembrei, Donavan  murmurou, enquanto lgrimas silenciosas comearam a descer devagar pelo rosto que fora maquiado com tanto cuidado. Para ele.  Eu... gostava muito dessa tia, mas no era por causa do dinheiro. Estou triste por t-la perdido.
 Pois pode comear a se alegrar, porque ela a deixou milionria da noite para o dia. Bem, imagino que voc queira pegar o primeiro avio para ir ao enterro, no  assim? Seu tio vai junto. Ele me avisou que j providenciou as passagens e telefonar mais tarde.
Com um gesto brusco, Donavan tirou a gravata. Seus olhos claros lanavam farpas fininhas, que atingiam direto o corao de Fay.
 No  minha culpa  disse ela, desesperada.
 Sei que no , mas mesmo assim nossa situao mudou por completo. No vou continuar casado com voc, Fay. Para mim, chega.
A figura macia de Donavan danava num borro confuso atravs das lgrimas.
 Mas e Jeff? A ao contra o padrasto?
 No sei...
A ligeira hesitao de Donavan fez com que ela se erguesse do sof e se aproximasse timidamente.
 Escute, eu vou pedir a tio Henry que mantenha segredo dessa histria. Podemos continuar casados o tempo suficiente para livrar Jeff do padrasto. Depois... depois podemos nos divorciar.
 Divorciar?  Ele soltou uma gargalhada curta e desagradvel.  Anular  um termo bem mais adequado. Ou voc j se esqueceu? Brincamos na cama, minha cara, mas no fizemos sexo de verdade. No fim das contas, foi bem melhor assim. Voc continua virgem e intocada, para todos os efeitos. Pode achar um desses janotas ricaos e se casar com ele.
 E voc?
Donavan deu-lhe as costas, sacudindo os ombros com indiferena.
 Eu fico com Jeff.
 No me quer mais, Donavan?
 O que eu quero no vem ao caso  replicou ele com frieza, cuidando para esconder o rosto.  O que no vou tolerar  ser objeto de falatrios em Jacobsville. Outro Langley caa-dotes, sim senhor! Era s o que me faltava... Especialmente numa hora destas, em que tenho o futuro de Jeff em minhas mos.
 Entendo.
Fay agora tinha os olhos secos, fixos no vazio. A dor anestesiara-a. Perdera Donavan, e no havia nada no mundo que o demovesse de sua deciso. Era um homem orgulhoso demais para conviver com uma esposa milionria. E mesmo que fosse menos orgulhoso, os falatrios acabariam Prejudicando o futuro de Jeff.
 Eu vou ligar para tio Henry  disse alto.
Mas falou com as paredes. Donavan sara, deixando a porta aberta.
Na manh seguinte Donavan levou Fay e Henry Rollins ao aeroporto. Os Ballenger mostraram-se compreensivos e dispensaram-na do servio por dois ou trs dias. Para consolo de Fay, suas olheiras e sua apatia foram atribudas  perda da tia, e ela dava graas aos cus por Donavan no ter ido ao escritrio; caso contrrio, a carranca sombria do marido certamente os teria feito mudar de idia,
 Obrigado pela carona  disse Henry, visivelmente embaraado, ao cabo de uma viagem tensa e hostil. Era evidente que os recm-casados no curtiam nenhuma lua-de-mel.  Fay, vou esper-la na fila de passageiros.
 Irei ter com voc daqui a pouco, titio.
Quando Henry se perdeu entre a multido, ela volveu os olhos opacos para o marido. Na vspera, Donavan voltara tarde da noite e dormira no quarto de hspedes,
 Pelo visto, voc no descansou nada durante a noite  disse ele, num tom seco e formal.
 Muito pouco. Eu gostava um bocado de tia Tessie.
 No fui compreensivo ontem  noite. Desculpe, Fay...
 No tem por que se desculpar  cortou ela, erguendo o queixo.  De minha parte, pretendo cumprir meu trato. Ficarei com vocs at o dia do julgamento. Depois, como voc sugeriu, poderemos requerer anulao do casamento.
 E depois? O que pretende fazer sozinha?
Ela deu uma risada amarga. Sentia a morte na alma.
 Que lhe importa?  indagou, abaixando-se para apanhar a maleta. No o olhava diretamente, para no se trair.  No contei nada aos Ballenger sobre a herana, e espero que voc faa o mesmo. Enquanto eu no me encontrar com os advogados, no existe certeza de nada.
 Escute, nem sonhe em recusar essa herana por minha causa  avisou ele, num tom de alegre despreocupao, como se Fay no significasse mais que um cisco em sua roupa. Deix-la desistir de uma fortuna em nome de uma ligao baseada em sexo parecia-lhe no mnimo criminoso.  S me casei com voc por causa de Jeff, como sabe.
Diante do olhar doloroso que recebeu de volta, juntou depressa:
 Bem, concordo que me senti atrado pelo seu belo visual. Mas vou sobreviver muito bem sem voc.
A palidez de Fay acentuou-se um pouco mais.
 Pelo menos um de ns sai de corao inteiro dessa histria  disse ela, depois de um silncio.  Adeus, Donavan.
 Adeus!? No acha que est sendo dramtica demais? At breve  melhor.
 Interprete como quiser, mas para mim  adeus. Vou voltar, sim, para o bem de Jeff, e vou ficar com vocs at o julgamento. Quanto a ns dois, ao nosso casamento,  adeus. Mesmo.
Fay deu-lhe as costas e encaminhou-se para o porto de embarque, sentindo o gelo da morte no corao. Contou os passos, pensando que cada um deles a levava para o vcuo da solido e do esquecimento. No se virou nem uma vez. Estava comeando a aprender a no olhar para trs, exatamente como Donavan fazia.
A curta estada em Miami foi exaustiva. Fay e Henry dedicaram-se a empacotar e despachar os objetos de tia Tessie, separando aqueles que deveriam ser vendidos. Ao final do segundo dia, os dois se dirigiram ao luxuoso escritrio dos advogados, onde foram recebidos com toda a deferncia.
 O testamento foi alterado recentemente, sem meu conhecimento   anunciou o advogado, cofiando os bigodes manchados de nicotina.
 A empregada de Tessie encontrou-o na gaveta da cmoda. Est devidamente legalizado por duas testemunhas.
Henry Rollins assobiou baixinho.
 No v me dizer que ela deixou a fortuna para os gatos...
 No  riu o homenzinho, extraindo um documento da pasta.   algo bem melhor que isso. O dinheiro dever ser empregado na construo de um orfanato especial para crianas portadoras de cncer incurvel e... srta. Langley! A senhorita est se sentindo bem?
Fay achava-se  beira, da histeria. De alegria e alvio.
 Quer dizer que eu no vou receber herana nenhuma?
O advogado olhou-a, assombrado. Percebera a reao de Fay, mas no queria acreditar no que via.
 A senhorita no queria esse dinheiro?
 Eu?  Fay controlou-se para no sair danando ali mesmo.  No, de forma nenhuma. Estou muito feliz assim.
 Pois eu no estou  resmungou Henry, coando a cabea.  Bem que gostaria de herdar um ou dois mveis de tia Tessie.
 Mas ela cuidou disso, sossegue  tornou o advogado, servindo-se de uma alentada dose de conhaque. A reao daquela moa bonita deixara-o atordoado.  De acordo com o testamento, todos os quadros e objetos de arte devem ser vendidos num leilo. O dinheiro apurado ser dividido entre vocs dois. Calculo que cada um receber a respeitvel quantia de duzentos e cinqenta mil dlares. E h as jias de Tessie, que ficaro com a senhorita, sob a condio de que no sejam vendidas.
  Eu jamais pensaria em vend-las  volveu Fay, sorrindo.  Algumas tm mais de trs sculos e pertenceram s casas mais nobres da Europa. Essas jias tm de ficar na famlia,  claro, e serem usadas pelos descendentes.
Nesse momento, sua voz falseou e seus olhos perderam o vio. Descendentes... Que descendentes?
 Bem, pelo menos no ficamos de mos vazias mais uma vez  comentou Henry, assim que deixaram o luxuoso edifcio.  Voc no queria o dinheiro de tia Tessie, Fay? Verdade mesmo?
 No, no queria. Para comeo de conversa, Donavan no teria se casado comigo, caso eu fosse rica.
  , o homem tem um trauma violento por causa do pai. Bom, diante dessa novidade seu casamento vai ganhar bases mais slidas, no  mesmo?
 Pode ser, tio Henry.
Fay foi lacnica de propsito, para no se alongar num assunto pessoal como aquele. Em sua opinio, se Donavan a amasse de verdade, tanto fazia ter ou no dinheiro, ser mendiga ou princesa. Ele a rejeitara por causa dessa nova herana, porque no queria uma esposa milionria. Para todos os efeitos, era uma forma de preconceito to danoso e destrutivo quanto qualquer outro.
Pois muito bem; no foraria nada com relao a Donavan. Voltaria a Jacobsville e diria a ele que o inventrio de tia Tessie levaria algum tempo ainda para ser levantado, e que enquanto isso seria obrigada a trabalhar para se sustentar. No contaria que o destino a lograra pela segunda vez e que a herana se reduzira a uma quantia apenas razovel. Ele a repudiara, e talvez tivesse lhe prestado um favor, pois Fay sentia que seu amor por Donavan crescia de maneira assustadora. Um amor sem esperana, unilateral, que poderia aleij-la para o resto dos dias.
Por causa de Jeff, no sumiria da vida de J. D. Langley por enquanto. Ficaria com ele e o garoto at que a adoo fosse decidida. Depois disso, escolheria sozinha seu caminho.
Mas no deixava de ser irnico o fato de ter entrado virgem no casamento e dele ter sado da mesma forma, conquanto tivesse experimentado momentos de prazer inesquecveis. Estranha era a vida!
Ser pobre j no a assustava como antes. Se tivesse o amor de Donavan, Fay se sentiria a mulher mais rica do mundo. Como passara momentos ternos e maravilhosos a seu lado! Quanta doura e ternura lera nos olhos de diamante! Por vezes, chegara a acreditar que ele quase a amara, principalmente nas horas mais arrebatadas. Mas desejo no era sinnimo de amor.
Impossvel conviver com algum que a encarava como uma sobremesa apetitosa. Fay queria ser desejada, sim, mas amada tambm, e na mesma proporo. Donavan impusera condies que no a satisfaziam. "Seja pobre, para que exista um bom relacionamento entre ns", dissera ele. No com essas palavras, mas o contedo era o mesmo. Se houvesse amor verdadeiro, nem riqueza nem pobreza contariam. Nem todos os mexericos do mundo.
Com um sorriso triste, ela fechou a mala e desceu as escadas. Devia voltar para o marido e fingir que no o amava. Brincar de casinha com ele, conversar com ele, rir com ele. Tudo para, no dia do julgamento, o juiz entregar Jeff ao "jovem e feliz casal", como certamente diria.
Jovem e feliz casal...
Fay reprimiu um soluo seco e ergueu o queixo.





CAPITULO VIII


Foi um choque encontrar Donavan esperando-a no aeroporto.
- Ns poderamos pegar um txi  comeou, nervosa, enquanto o tio contemplava-os com curiosidade,
 Bobagem. No me deu trabalho nenhum vir busc-los. - Donavan forou um sorriso despreocupado, tratando de esconder a intensa alegria que o invadira no momento em que vira a esguia silhueta da mulher descendo do avio. Era forado a admitir que esses dois dias haviam se escoado com exasperante lentido. Que sentira falta de Fay, de seu riso e de seu aroma de jasmim. Alm disso, experimentava uma sensao incmoda de culpa, pois tratara-a com rudeza num momento de dor e solido.
 Foi muita gentileza sua, Donavan  interveio Henry, entregando-lhe a maleta de Fay.  Para dizer a verdade, odeio txis.
Ela acompanhou-os em silncio, ignorando os olhos claros que a buscavam com calma insistncia. Tentava convencer-se de que no se interessava mais pelo que o marido dissesse ou fizesse. Ele a magoara pela ltima vez, prometeu-se. No faria papel de boba ingnua novamente.
Depois que deixaram Henry, no trocaram nenhuma palavra at chegarem  fazenda, cujo silncio surpreendeu Fay.
 Jeff est na escola  explicou Donavan, depois de levar a bagagem de Fay para o quarto.
 Escola? Voc conseguiu, ento, convencer o diretor?
 A diretora  corrigiu ele, abaixando-se para acariciar Belze.  No foi muito difcil.
Donavan brincou um pouco com o gato e depois se ps de p, os olhos lmpidos e quietos perscrutando-a com gravidade.
 Como voc est?
 Bemretrucou ela, com secura.  No estou sofrendo, Donavan, portanto no precisa se preocupar comigo. No pretendo lhe causar nenhum problema. Agora, se me d licena, vou trocar de roupa para preparar o jantar.
 Voc no tem de preparar nada...
 Eu no me importo  cortou Fay, dando-lhe as costas e dirigindo-se para o quarto.  J sabe quando ser o julgamento?
 Na semana que vem  disse Donavan, depois de um minuto. Entre amargurada e vitoriosa, Fay continuou andando e deixou-o plantado na sala. J servia de consolo saber que o todo-poderoso Donavan parecia to pouco  vontade quanto ela, mas a ferroada que sentira na boca do estmago continuou a importun-la durante muito tempo. Na semana que vem, repetia-se. Dispunha de apenas alguns pobres e mseros dias para desfrutar do marido. Depois disso seria a morte da alma.
O jantar decorreu tenso e calado. Jeff, que chegara alegrinho, logo farejou problemas no ar e fechou-se num mutismo sentido. S no fim da refeio  que falou:
 Uma pena o que aconteceu com sua tia. Voc gostava dela, no ?  por isso que est triste?
 , Jeff  concordou ela, fazendo-lhe uma festa no queixo.  Tia Tessie era uma mulher sensacional, amiga certa nas horas incertas.
 Verdade que era muito rica?
Fay odiou a pergunta, porm sabia que ela fora movida apenas pela natural curiosidade infantil!
 Sim,  verdade. Mas dinheiro no  tudo na vida, querido. Dinheiro no compra sade nem felicidade.
 Assim mesmo, compra um monte de coisas boas. Como video-games, por exemplo.
Fay no pde deixar de rir, apesar de Donavan fechar a carranca e se levantar da mesa com brusquido. De propsito, ela continuou a conversar com o menino e demorou-se mais que o necessrio para comer o pudim.
Por fm, ergueu-se para empilhar os pratos e lev-los  cozinha. S ento ele se aproximou para ajud-la, embora sua expresso se conservasse fechada, os olhos obscurecidos por uma sombra que Fay no conseguiu identificar. Raiva? Irritao? Desprezo? No sabia. Mas, com certeza, no era amor.
  Ouvi voc conversando com Abby Ballenger ao telefone, um pouco antes do jantar. J pediu sua demisso?
 No, ora essa! Inventrios levam muito tempo para ficar prontos, Donavan. At eu enxergar a cor do dinheiro, preciso trabalhar para me sustentar.
 E Henry Rollins?
 Tambm ter de esperar para receber a parte dele, como eu.
 No foi essa a impresso que tive. O homem falou pelos cotovelos at a hora em que o deixamos. Parecia mais do que agitado com o presente cado do cu...
Fay no respondeu. Donavan punha-a nervosa, e sua simples presena fazia-a estremecer por dentro. Impossvel ficar a seu lado e no se lembrar dos beijos ardentes, daquela noite nica e maravilhosa num hotelzinho modesto, onde ela entrevira as portas do paraso. Mesmo  distncia, Fay podia sentir o sabor de Donavan nos lbios, o aroma de tabaco e couro nas narinas... A mo de Donavan em seu corpo. Amava-o com quieto desespero, sabendo que o amaria da mesma forma fosse ele o que fosse, mendigo, ladro ou deus. Contudo, Donavan no nutria o mesmo sentimento por ela.
 Acho que devia ter ido a Miami com voc  disse ele, de repente.  Voc me parece exausta. Os documentos, os objetos de sua tia, sua tristeza... Garanto que tio Henry deixou toda a carga em cima de seus ombros.
 Ele cuidou dos funerais, com a ajuda dos advogados. Eu limpei a casa e... Fay interrompeu-se, pestanejando para segurar as lgrimas, e lavou de novo o mesmo prato.  Tudo me pareceu to triste e vazio sem ela.
Donavan enfiou as mos nos bolsos e estudou o bico das botas, hesitando alguns segundos antes de replicar, com voz rouca:
 A fazenda tambm ficou assim sem voc.
Ela suspendeu o trabalho por um instante fugaz. Depois continuou, sem se voltar.
  Obrigada, mas no  preciso fingir. No moro aqui o tempo suficiente para que minha ausncia seja notada, Donavan. Voc cozinha melhor do que eu, e cuida de tudo com toda a competncia. Eu... no passo de uma ajuda conveniente e temporria. Tenho perfeita conscincia disso.
Donavan, por seu lado, tinha perfeita conscincia de algo muito diferente: da dor imensa que trespassava o corao de Fay. Imbecil que fora, tratando-a daquele modo! Agira com tamanha eficincia, pronunciara palavras to certeiras, que Fay agora julgava-o mais feliz sem ela!
  Jeff me pediu para lev-lo ao cinema. Parece que  um filme timo, com espadachins e duelos. No quer ir conosco?
  No, obrigada. Estou cansada demais para aproveitar um filme de aventuras. Vo os dois, e divirtam-se. Quanto a mim, vou para a cama daqui a pouco.
 Por que no repousa por uma ou duas horas? Ns podemos esperar.
 No gosto de cinema  improvisou ela rapidamente.  Obrigada, de qualquer modo.
Donavan deu um passo  frente.
 Voc tem passado por maus momentos, Fay, e eu no fui nada companheiro. Escute...
  No quero sua piedade  atalhou ela, a voz calma e serena, apesar do tumulto que a proximidade do marido causava em sua mente.  Estou aprendendo a caminhar sobre meus prprios ps, Donavan. No posso mentir e dizer que est sendo fcil, mas acho que conseguirei superar esta fase sem a ajuda de ningum. Depois do julgamento, pretendo me mudar para aquele mesmo apartamento. Por sorte, o aluguel est pago at o fim do ms que vem e...
 Voc est partindo do princpio que eu vou ganhar a causa, mas h fortes possibilidades de que isso no acontea. Alm do qu, se voc deixar a fazenda logo depois do julgamento, o padrasto de Jeff poder apelar da deciso, caso eu ganhe. Tentar reabrir o caso, alegando que este  um lar instvel para o enteado.
Incrvel como ele parecia resolvido a mant-la ali, apesar de no a amar. Tudo em nome do sobrinho, que, no fim das contas, era a nica pessoa de quem Donavan gostava.
 Est bem  aquiesceu Fay, sem sada diante da lgica irrefutvel.  Ento fico aqui at voc achar que no precisa mais de mim.
 Nesse caso, voc ficar at a velhice.
Fay voltou-se devagar, os olhos muito grandes e surpresos. Mas a cozinha estava vazia.
Ao cabo de algum tempo, sacudiu os ombros e voltou para a pia. Tanto sonhava de olhos abertos, que acabara escutando palavras que gostaria de ter ouvido, mas que na realidade Donavan jamais pronunciara. 


Nos dias que se seguiram, a rotina logo se estabeleceu na fazenda. Fay e Donavan voltaram a trabalhar, e Jeff ia todos os dias  escola. O menino, sorridente e corado, oferecia a imagem acabada de um garoto feliz, oriundo de um lar igualmente feliz.
Fay trabalhava com afinco, e no foram poucas s vezes em que se disps a permanecer no escritrio at altas horas da noite. Calhoun e Justin desmanchavam-se em elogios; Donavan no.
 Voc s trabalha  resmungou, de mau humor, numa noite em que Fay retornou mais cedo.  E Jeff e eu, no contamos?
  Tio Don, todo o mundo anda elogiando o trabalho de Fay  interveio o garoto, a boca cheia de suspiro e morango,  Tio Justin me disse que ele tem economizado uma grana legal... quero dizer, um bom dinheiro por causa dela.
Donavan depositou a xcara de caf sobre o pires, produzindo um tinido seco e irritado.
 , eu j soube.
 Voc tambm trabalha at tarde todos os dias  disse Fay, fitando-o com calma.  E eu no reclamo.
Os olhos de diamante tornaram-se frios quando a encararam.
 Pois devia reclamar. E, agir de acordo com uma mulher recm-casada.
Donavan insinuava algo que estava fora da compreenso de Jeff, mas no dela. Fay se fez escarlate e baixou os olhos.
  Bem, ns... nossa situao  diferente  balbuciou.  No  uma situao normal...
 Podemos cuidar disso.
Sobressaltada, ela ergueu a vista. No se notava zombaria nem ironia nos olhos irisados que a fitavam.
 No h mais tempo. - Ele ergueu uma sobrancelha:
  Como disse?
Jeff ergueu-se da mesa e jogou o guardanapo.
 Estou farejando uma briguinha por aqui, por isso com licena. Vou assistir ao meu programa.
Segundos depois, a televiso explodia num rock furioso.
 Diminua essa barulheira, demnio!  trovejou Donavan.
 Opa, desculpe, tio Don.
A barulheira diminuiu, com efeito. Donavan, contudo, continuava a encarar Fay com expresso sombria.
  Somos marido e mulher, caso tenha se esquecido. Podemos e devemos compartilhar a mesma cama.
 Era s o que faltava!  Fay ps-se a dobrar os guardanapos, sem perceber o que fazia.  Quando a situao de Jeff estiver resolvida, no pretendo ficar aqui mais do que o estritamente necessrio. E no quero correr o risco de trazer ao mundo um filho bastardo.
De repente, a carranca de Donavan desmanchou-se. De zangado ele passou a... triste. Ferido, magoado. Fay se arrependeu de imediato do que dissera. Amava o marido, mas ele s queria seu corpo, e isso a punha em guarda permanente. No quisera ofend-lo; tudo o que fizera fora lutar pela prpria sobrevivncia emocional, utilizando-se das poucas armas de que dispunha.
  No foi isso o que quis dizer  murmurou baixinho.  Mas voc h de concordar comigo, Donavan. Uma criana, a estas alturas dos acontecimentos, poderia complicar ainda mais nosso... nossa...
 No sabe que filhos podem ser evitados?  Dessa vez era evidente o sarcasmo na pergunta.
 De qualquer modo, no ficarei aqui por muito tempo. Reconheo que estou atrapalhando sua vida sexual, e peo-lhe desculpas por isso, mas logo estarei longe daqui e voc poder... sua vida poder voltar ao normal.
 Ento  isso  volveu ele, erguendo-se lentamente, os punhos cerrados cados ao longo do corpo.  Na sua cabea, estou necessitado de mulher, e voc serviria para me... me acalmar enquanto estivesse por perto.
As faces de Fay ardiam em brasa.
 No comece agora a fingir que sente outra coisa por mim a no ser desejo. Alm do mais, no se esquea de que sou rica.
Os punhos cerrados relaxaram de sbito.
  verdade  disse ele, absorto.
Donavan quase se esquecera desse detalhe. Lembranas voltaram-lhe vividamente  cabea: a cobia do pai, os murmrios descontentes da cidade quando sua segunda mulher cometeu suicdio. A vergonha, o desprezo de todos,  vontade de sumir de Jacobsville.
Muito calado, ele apanhou o chapu do cabide. Minutos depois, deixava-a sozinha.
A dois dias do julgamento, Donavan e Jeff perderam sono e apetite. Brigavam entre si, tinham exploses inexplicveis de mau humor e fechavam-se num mutismo sombrio durante as refeies. A tenso se fez to palpvel que Fay tinha vontade de rasgar o ar com uma faca.
Naquela noite, depois de presentear os dois com um jantar especial, Fay tirou da bolsa mais uma arma conciliatria: trs filmes que alugara naquela tarde, escolhidos a dedo. Trs filmes de aventuras, recheados de tiros, correrias e sexo, bem ao gosto deles.
 Oba, genial!  gritou Jeff, entusiasmado com os ttulos.  Voc acertou em cheio, Fay. Obrigado!
 Pensei que voc no gostasse desse tipo de filme  comentou Donavan, enquanto a ajudava na cozinha.
 No sou apaixonada por eles. Mas achei que seria uma boa idia distrair os dois... quero dizer, Jeff... enfim, acredito que isso sirva para tirar o julgamento da cabecinha dele.
 E da minha tambm. Foi gentil de sua parte, obrigado.
 Tem alguma notcia do padrasto de Jeff? 
 Algo me diz que ele anda nos espionando.
 Por qu?
 Para ver se encontra alguma prova contra ns.  bem caracterstico dele.
 Voc... voc andou cometendo alguma... indiscrio?
  Se quer saber se tenho procurado outras mulheres, a resposta  no. Enquanto estivermos casados, voc ser a nica.
  Obrigada  fez ela, s para ter o que dizer.
 E quanto a voc? Espero que tenha retribudo na mesma moeda. - Fay deixou escapar uma risadinha nervosa.
  Oh, no se preocupe comigo. Poucos homens vo se interessar por mim, agora que sou pobre.
Donavan ergueu a cabea vivamente.
 Pobre? Voc acaba de herdar uma fortuna incalculvel.
 H...  verdade, sempre me esqueo disso  Fay teve vontade de morder a lngua.  Seja como for, no pretendo quebrar os votos que fiz diante do altar.
 Tenho certeza que no, Fay.
Havia uma doura inesperada na voz de Donavan, que a fez encar-lo com espanto. Ele se aproximou e tomou-a pela cintura, os olhos subitamente doces:
  No precisa piscar desse modo. Posso parecer mau, mas seria incapaz de causar-lhe algum mal fsico.
  Sei disso.  A voz dela saiu fininha e apagada.  E... no, voc no tem cara de mau. Gosta muito de Jeff, no  verdade?
Ao v-la em seus braos, frgil e embaraada, Donavan puxou-a um pouco mais e encostou seu rosto ao dela.
Fay fechou os olhos, incapaz de reagir. O hlito morno do marido bafejava-lhe o canto da boca, como que pedindo permisso para entrar.
 Sim,  fcil gostar de crianas. Mesmo as mais rebeldes. Crianas sabem receber e devolver o amor, Fay.
 Entendo.
 No, voc no entende coisa nenhuma  volveu ele, com brusquido.  Erga o rosto para mim, Fay. Quero sua boca.
Ela tentou protestar, mas o beijo silenciou-a. Os lbios de Donavan apartaram os dela com impacincia, o corpo macio colando-se sofregamente s curvas delicadas, as mos viajando-lhe pelas costas.
Soltando um gemido suave de adorao e capitulao, Fay ergueu-se na pontinha dos ps e abandonou-se ao beijo. Seu corpo se recusava a obedecer s ordens insistentes que recebia da razo, A lngua de Donavan acariciava-lhe a boca docemente, acompanhando a curva de seus lbios, sem forar entrada, enquanto a mo continuava a viajar pelo seu corpo, provocando fagulhas eltricas.
De repente, o som de passinhos midos fez com que ele erguesse a cabea.
Mais que depressa, Fay tentou se soltar, mas Donavan segurou-a com firmeza.
  Ele no  cego  murmurou-lhe ao ouvido.  Mantenha-se firme.
Fay levou algum tempo para entender o que Donavan queria dizer. Mas bastou que o marido a puxasse com fora contra si, para perceber que o desejo dele era to intenso que no havia como escond-lo. Muito menos de um adolescente esperto como Jeff.
 Desculpem, vocs dois  disse o garoto, embaraado.  Vim buscar um refrigerante.
  vontade, sobrinho. Ns somos casados, sabia?  riu Donavan, para desanuviar o ambiente.
 , s vezes eu me esqueo. J era tempo de vocs comearem a agir como um casal, ufa! At que enfim eu vejo um beijo de verdade entre os dois...
Dizendo isso, Jeff piscou um olho matreiro antes de sair e fechar a porta de mansinho.
  Com sua permisso, endosso todas as palavras de Jeff  disse Donavan, sem larg-la.  E chega de desviar a vista de mim. Voc j me viu nestas mesmas condies, e com muito menos roupa para nos atrapalhar.
 Pare com isso, por favor.
Ele suspirou e deixou-a, pegando um cigarro do bolso.
  Voc se envergonha com facilidade demais para uma mulher casada  disse, tirando uma longa tragada. Seus olhos brilhavam como tochas.  Tomarei cuidado para voc no engravidar, sossegue. Quero que se deite em minha cama hoje.
Quando Fay esboou um protesto indignado, ele espalmou a mo no ar e encarou-a com severidade.
 Trate de me ouvir com ateno, mocinha. Se at um garoto de oito anos  capaz de perceber que no vivemos como um casal normal, o padrasto dele tambm ser. Ainda corro o risco de perder Jeff, e isso  algo que no tolerarei em hiptese nenhuma.
 Mas...
 Ainda no acabei. Se h uma coisa que no combina com sua personalidade, ela se chama fingimento. Portanto, no finja que no gosta de meus beijos, nem finja que no me quer na cama. Neste preciso momento, voc est to excitada quanto no dia de nosso casamento. A diferena, minha querida  e Donavan se aproximou um pouco mais   que agora podemos fazer sexo at o fim. Podemos chegar at onde voc nem imagina, Fay.
Ela entreabriu os lbios para umedec-los, perdida no transe dos olhos claros. Subjugada, entregou os pontos. A longa batalha terminara. No havia mais como fugir. E mesmo que tentasse, seu corao no o  permitiria.
Donavan jogou longe o cigarro e abriu a porta.
 Jeff, ns vamos nos deitar mais cedo. Trate de apagar a televiso s onze.
 No vai dar tempo de assistir aos trs filmes...
 Assista amanh. As onze, est entendido?
Quando se viram sozinhos no quarto, Donavan tomou-a nos braos ali mesmo, ao lado da porta. Seu corpo possante esmagou-a contra a parede, indicando de maneira inequvoca e clara que o desejo no s permanecia, como crescia a cada minuto. Enquanto a beijava, seus dedos febris iam-lhe arrancando as peas de roupa, parando de vez em quando para explor-la. Por fim, quando os seios saltaram livres, dois pssaros palpitantes de vida, ele prendeu a respirao. Gemendo de prazer, enterrou a cabea no vale entre os seios, beijando-o com volpia. O perfume de jasmim entontecia-o, despertava seus instintos masculinos em cada fibra dos msculos tensos.
Dcil e submissa, Fay deixou-se carregar para a cama. Foi com verdadeiro fascnio que observou o marido despir-se, e apesar de o quarto estar banhado apenas pela luz prateada da lua, o que ela viu foi o suficiente para atordo-la.
 Voc j sabe o que nos espera, pequenina  sussurrou ele, embevecido diante do corpo escultural que o aguardava.   a mulher mais linda que vi em toda a minha vida... Fay!
A voz rouca e quente provocou um frmito no corpo da esposa, que se soergueu, apoiando-se num cotovelo. O sangue transformou-se em fogo selvagem nas veias quando ela percebeu que Donavan se inclinava devagar, em busca de seus lbios. E quando veio o beijo, Fay deixou-se levitar num mundo de sensaes maravilhosas. Sentiu que havia ternura e tormento na alma do marido, algo que ela tinha o poder de confortar e aplacar. Sem pensar mais, enlaou-o pelo pescoo e puxou-o docemente para baixo.
Donavan mergulhou o rosto nos cabelos perfumados, brio de desejo. Mordiscou os mamilos rosados e firmes, sugou-os com frenesi, rodeou-os com a lngua, passando de um para outro com sofreguido.
Sua mo buscou a curva da cintura fina, o ventre liso e macio, as coxas. E foi pousar nos plos sedosos do pbis, com infinitos cuidados, acariciando devagar. Sentiu sob os dedos os msculos firmes e tensos da mulher, vibrando consoantes com os dele. E seu corao se encheu de vitoriosa alegria quando ela, instintivamente, apartou as pernas para receb-lo.
Fay gemia baixinho, jogando a cabea de um lado para o outro do travesseiro, o desejo se apoderando de todo o seu ser de forma avassaladora. Tristezas e incertezas j no existiam em sua mente; s conseguia se concentrar naquele momento supremo que lhe trazia ondas intoxicantes de embriaguez. Deixou-se levar por elas, mergulhando com gozo nas guas da paixo desenfreada.
Antecipando o gosto que teria, Donavan finalmente deitou-se sobre a mulher, cobrindo-a com seu corpo vigoroso. Buscou-lhe a boca avidamente, invadindo-a com a lngua mida, ao mesmo tempo em que invadia o ventre morno e macio, enterrando-se em deliciosa evaso. 
- Sim, Fay  murmurou ele, num sussurro quase inaudvel.   assim que se faz amor. Voc no sabia que o contato era to ntimo e bonito, sabia?
 No... no...  ela tinha a respirao entrecortada, mas algo de maravilhoso e estranho se avolumava dentro de si. Algo que ainda no compreendia, mas que a levava para um abismo que ela adivinhava cheio de estrelas fulgurantes.
  Oh, cus  gemeu Donavan, quando as pernas de Fay enlaaram-no pela cintura, convidando-o a ir mais fundo.  Oh, cus... Estou perdendo o controle... Fay!
E foi o que aconteceu. Alucinado pela espera de dias, esgotado e vencido, Donavan arqueou o dorso uma ltima vez antes de desabar ofegante sobre o corpo macio da mulher, num turbilho de convulses.
 Desculpe  murmurou, ao cabo de alguns minutos, sentindo-se vazio e pesado.  Deus, como estou arrependido! Desculpe, por favor!
 Arrependido do qu?  A curiosidade de Fay espicaou-se diante da insistncia do marido.  De ter feito amor comigo?
 De no lhe ter dado prazer.
 Quer dizer, do jeito como fizemos no dia do casamento?  Ela sorriu, enrolando uma mecha dos cabelos negros de Donavan entre os dedos.  Mas ainda temos tempo para isso, no temos?
Ele se soergueu devagar, fitando-a cheio de perplexidade.
 Mas... Ento pensa que o que aconteceu foi s para me dar prazer? S para mim?
Foi a vez de Fay se espantar.
 No foi?
Donavan puxou-a para si, embalando-a, rindo baixinho.
 Voc no existe!  nica em um milho, sabia? Deite-se aqui, vamos. Levante sua perna, assim...
Ela arquejou quando Donavan a penetrou pela segunda vez. No esperava por aquilo to depressa. Ouvira dizer que os homens tinham de esperar horas antes de... antes de...
O corpo poderoso e vibrante comeou a se mover devagar dentro dela, tirando-lhe o flego.
 Donavan  comeou, assustada com as vagas brilhantes que a arrastavam para o desconhecido.  Eu...
No pde continuar. Um grito abafado escapou-lhe da boca, enquanto uma onda de espasmo carregava-a numa nuvem dourada.
 Acompanhe meu ritmo, querida. Sinta-me por inteiro... Assim... - Os movimentos se tornaram mais rpidos e vertiginosos, levando-a para cima, para alm do infinito. Fay sentia Donavan mergulhar e subir, mergulhar e subir, e seu xtase ia num crescendo de gozo quase intolervel, at que seu corpo, arqueando-se, desmanchou-se num mar de lava incandescente. Nesse momento, sentiu que algo se desprendia do marido e a inundava por dentro.
Ofegantes, respirando entrecortadamente, os dois retomaram de mansinho a terra, os corpos molhados de suor. Sem querer quebrar o maravilhoso encantamento, deixaram-se ficar entranados, respirando o aroma um do outro.
  Esse, Fay,  o verdadeiro ato de amor  disse ele por fim, afastando-lhe uma mecha dourada da testa.
 Mas eu pensei... L no hotel foi diferente...
  outra forma. Mas nada se compara ao que experimentamos hoje, no concorda?
Ela se aninhou nos braos possantes, tomada de uma leseira gostosa.
 Foi como se nos transformssemos numa pessoa s... 
 Exato.
Fay fechou os olhos, amolecida.
 Posso ficar aqui com voc? - Ele apertou-a com doura.
 Tente escapar.
 No quero...
Donavan sorriu e mordiscou-lhe a orelha.
 Sinto vontade de recomear tudo, mas vou ser paciente e esperar at amanh cedo. No doeu, Fay? Nem na primeira vez?
 No  mentiu ela, aconchegando-se mais.
Na verdade, doera um pouquinho s. E da segunda vez fora um paraso.
 S nos resta um problema, Fay. Esqueci-me de usar preventivo... Desculpe mais uma vez. Esqueci por completo.
Mas ela j nada ouvia. Adormecera como criana, os longos clios repousados sobre o rosto de porcelana. Donavan beijou-os de leve e ajeitou-se ao lado da mulher. Sua mo buscou o ventre liso e macio, onde descansou.
 Voc adoraria um beb, Fay. E eu tambm... Talvez ele j esteja a dentro. Se estiver, pode ser que eu a convena de que ele ser uma bno, no uma maldio.
Por entre a nvoa do sono, ela ouviu o marido falar qualquer coisa sobre bno e maldio, mas no compreendeu. Lutou um pouco para abrir os olhos, e em seguida desistiu. Ali estava to bom, to quente...





CAPTULO IX


Fay cantarolava na cozinha, enquanto escolhia as melhores fatias de bacon. Donavan sara cedinho para supervisionar a ordenha, sem t-la despertado, o que a deixara um tanto desapontada. Mas sentia-se bem, e o mundo j no lhe parecia to cinzento.
De repente, parou de cantarolar. Sabia, intua que ele voltara e estava ali, observando-a, embora o silncio fosse total. Virou-se devagar, sem ter certeza sobre o que diria.
 Bom dia  comeou, mas parou em seguida. Cus, como esse homem mexia com ela! Alto, de fsico poderosamente bem proporcionado, a camisa azul combinando s maravilhas com os olhos claros e os cabelos pretos. Sua expresso, porm, lembrava a de um experimentado jogador de pquer: absolutamente neutra. Nervosa, embaraada pelas lembranas da vspera, Fay experimentou uma insegurana que a deixou mais tensa que de costume.
Ela no podia adivinhar, mas a cabea do marido trabalhava de modo bastante semelhante. De fato, Donavan percebera a tenso da esposa, e naquele momento no sabia a que atribu-la. Na vspera ambos tinham chegado a algo muito prximo da verdadeira afeio, mas agora tudo parecia mudado. Fay dava-lhe a impresso de um coelhinho assustado, pronto para fugir ao primeiro movimento que fizesse. O que mais o magoava era que a expresso dela no indicava nenhuma emoo, fosse amor ou raiva.
 Bom dia. O caf est pronto?
  Quase.
 timo. Ento vou chamar Jeff.
E nada mais foi dito, alm de algumas frases ocasionais e polidas. Durante o caf e o resto do dia, Fay em vo buscou sinais de calor e ternura nos olhos de diamante. Donavan timbrava em desvi-los com a habilidade de um mestre. Por fim, ela desistiu. Chegou  concluso de que ele tinha se arrependido, e por isso mesmo resolveu manter-se a prudente distncia. Nessa noite, ele no a procurou, e Fay no sabia se devia se sentir humilhada, aliviada ou simplesmente indiferente. Sabia apenas que, com toda a certeza, aqueles momentos encantados da vspera nada haviam significado para o marido.
Na noite seguinte, depois de um silencioso jantar, os trs sentaram-se diante da televiso. Jeff, contudo, mostrava-se inquieto e triste.
 Que  que h, campeo?  perguntou Donavan, preocupado.   a terceira vez que voc suspira. Algum problema?
 ... acho que sim  respondeu o menino, afundando o rosto no peito.
 Que houve?
  Voc e Fay  Jeff ergueu os olhos escuros e tristes.  No fique bravo comigo, tio Don, mas se vocs aparecerem amanh na corte desse jeito, o juiz vai me devolver para... para meu padrasto e... e eu vou ter de voltar para a Escola Militar. Eu... Oh, por favor, vocs no podem fingir que so felizes pelo menos diante do juiz? Por favor?
Donavan ergueu-se e desligou a televiso. Um silncio pesado envolveu os trs durante alguns minutos.
 Podemos, Jeff.  A voz do tio soou carinhosa. Ele afagou-lhe os cabelos de leve e sorriu.  Prometo que o juiz vai achar que somos a famlia mais feliz do mundo. Agora v tomar seu banho.  melhor deitar-se cedo, porque o dia vai ser difcil para voc, garoto.
Quando Jeff deixou a sala, Donavan voltou-se para Fay.
  Ele tem toda a razo. Se no formarmos uma frente unida,  quase certo que o juiz d parecer favorvel ao padrasto.
 Sei disso...  A voz dela parecia embargada.  Escute, Donavan, no sei o que pensa de mim. Mas asseguro-lhe que no quero ver o menino morando em outro lugar, por isso estou pronta para ajud-lo.
 Obrigado. Donavan dirigiu-lhe um sorriso melanclico e acendeu um cigarro.  Eu no devia ter perdido a cabea daquele modo anteontem. Parece que tudo ficou mais difcil entre ns, no  mesmo?
  Eu tambm sou culpada  respondeu ela,  falta de resposta melhor.
 De qu? No foi voc que me seduziu, moa. - Ela respirou fundo.
 Eu... no estou tomando plulas. E voc... bom, voc no fez nada para prevenir... quero dizer...
  verdade, no fiz. E da?
 Da que... que eu talvez fique grvida.
Um sorriso vagaroso flutuou nos lbios de Donavan.
 Aqui na fazenda h um velho vestido de batizado. Talvez esteja meio amarelado, mas  bonito, cheio de rendas. Daqueles antigos, sabe como ? Tenho tambm um bero, que foi de meu av.
Ela ergueu os olhos verdes e magnficos, um par de oceanos cheios de promessas.
 Eu tambm... tambm tenho uma bacia e uma jarra de prata que foram usadas no meu batismo. Consegui salvar as duas peas do leilo de tia Tessie. A moblia, infelizmente, foi perdida, mas...
Ao ouvir o nome da tia, a expresso de Donavan se entristeceu.
 Voc agora est rica. Pode comprar quantas jarras de prata quiser, quantos beros e carrinhos quiser. Por que no ficou com a moblia tambm?
Fay buscou depressa uma resposta satisfatria.
 No h lugar no meu apartamento.
 Seu apartamento! Por enquanto sua casa  esta, e daqui voc no sai, at eu ter certeza de que no est grvida.
Ela ajeitou nervosamente as pregas da saia.
  quase certo que no estou.
 Por qu? Por ter sido a primeira vez? - Fay no gostou da ironia.
 Posso ser inexperiente, mas no sou burra. E eu preferia no tocar mais nesse assunto, por favor.
Dessa vez Donavan sorriu. Gostara da reao de Fay, e seria capaz de jurar que vira um brilho de esperana nos olhos de esmeralda. J no lhe restava dvida; a atrao que existia entre ambos era recproca. A atrao fsica, pelo menos.
Restava-lhe descobrir se havia amor tambm.
 Por que no dormimos juntos hoje? Afinal, uma vez a mais, uma a menos, no vai fazer diferena, agora.
 Voc no me quer aqui na fazenda. E eu no quero criar um beb sem pai.
 Quem disse que eu no a quero aqui?
 Voc, ora esta!  A indignao de Fay no teve limites. Ela se ergueu para enfrent-lo, os olhos dardejando agulhas de fogo.  Voc praticamente me botou para fora de casa no dia em que tia Tessie morreu! Disse que no me queria mais como mulher e me deixou ir para Miami sozinha...
 Sozinha no. Seu tio foi junto. - Fay ignorou-o.
 Quem falou em anulao? Voc, no eu!
 E quem falou em divrcio primeiro?
 No tente me confundir, J. D. Langley! Voc me disse que eu poderia encontrar um... um rapazola ricao para marido!
 Eu?!
 Voc!
 Bem, isso foi porque...  Donavan coou a cabea, em busca de uma boa desculpa.  Porque eu ainda no tinha dormido com voc, pronto. Agora estou irremediavelmente viciado.
 Sim, por mulheres. Qualquer mulher!
 No, senhora. H pelo menos um ano eu perdi o interesse pelo sexo de uma vez, lembra-se do que lhe contei? Voc  que ateou fogo em mim de novo.
  Perdeu o interesse, h! Bem que eu vi sua perda de interesse anteontem...
Nem bem acabara de falar, Fay levou a mo  boca, arrependida. Sem dizer mais nada, sentou-se muito dura, danada consigo mesma.
 Eu tinha experincia anterior, Fay.
 E como!  rebateu ela, furiosa.
 Minha experincia serviu para tornar o sexo mais fcil para voc. J pensou nisso? .
 No, nem quero pensar  retorquiu ela, batendo o p.  Voc fez coisas comigo que eu nunca... nunca nem sequer tinha lido!
Donavan disfarou um sorriso. Fay parecia uma garotinha de cinco anos, birrenta e mal-educada. Tanto melhor!
 Vou lhe contar um segredo, Fay  Donavan ajoelhou-se a seu lado, forando-a a mir-lo bem nos olhos.  O que eu fiz com voc anteontem, no fiz com mais ningum, Oh, no tudo,  claro. Mas a parte mais doce e terna, essa eu posso lhe garantir. Foi s com voc, Fay. Eu jamais sonharia em fazer o mesmo com outra mulher.
Havia tanta doura e franqueza nos olhos cinzentos, que ela se sentiu derreter por dentro.
 V-verdade?
 Pode me acusar do que quiser, menos de mentiroso. E quer saber do que mais?
Sem esperar resposta, Donavan puxou-a para o tapete e deitou-se sobre ela, imobilizando-a. Sua perna insinuou-se por entre as dela, e seu corpo comeou a se mover devagar.
  Quero voc de novo. Agora.
Os dedos morenos comearam a desabotoar-lhe a blusa.
 A porta est...
 Aberta  completou ele, deslizando a mo para dentro do suti.  Vou lev-la para a cama, Fay. E fazer com voc tudo o que fiz duas noites atrs. J.
De um salto, ele se ps de p e tomou-a no colo. Com algumas passadas carregou-a para o quarto e depositou-a na cama carinhosamente, endireitando-se para contempl-la. Tinha uma mecha de cabelos sobre os olhos brilhantes, a respirao acelerada, o corpo inteiro desperto, pronto para o que estava por acontecer.
Fay apoiou-se sobre os cotovelos sentindo-se feminina e aquecida pelo desejo ardente do marido, os olhos verdes fundindo-se com os dele.
Sem pressa, Donavan se inclinou. Ela fechou os olhos, esperando o beijo... que no veio. O telefone tilintou spero, tirando-os do seu mundo particular.
Impaciente, Donavan ergueu o receptor do gancho.
 Al.
 Amanh  o grande dia  uma voz sarcstica perfurou-lhe o crebro, arrancando-o por completo do enlevo de minutos atrs. Brad Danner, o padrasto de Jeff!  Mal posso esperar, Donavan, porque vou ganhar a custdia do garoto, to certo como dois e dois so quatro. Esse seu casamento de imitao no engana ningum.
 No  de imitao.  para valer, Brad.
 Ento trate de provar que . Por enquanto, v aproveitando os ltimos momentos com meu enteado. Quero-o de volta a partir de amanh, est me ouvindo?
 Perfeitamente. Seria a glria para voc me vencer no tribunal, no  mesmo? E dois dias depois, o garoto estar penando no Colgio Militar.
 Sim, ele voltar para l, a fim de aprender o que  disciplina. De topetudos na famlia basta-me um.  A voz do outro lado da linha tinha um timbre desagradvel e pastoso. Brad, evidentemente, excedera-se nos drinques.  Em toda a minha vida de casado, Lucy me atormentou comparando-me com voc. Nada do que eu fazia estava correto, nem mesmo aquilo que eu copiava de voc. Deus, no imagina como eu o odiei por isso, Donavan!
 Imagino melhor do que julga. Em todo o caso, Lucy sempre demonstrou tendncia de romantizar meus atos. Depois que papai morreu, eu me transformei numa espcie de ncora para ela. Quanto  opinio que ela tinha de voc...  Donavan sorriu  ...no posso deixar de pensar que minha irm estava com a razo. Para princpio de conversa, voc se casou s por causa do dote que eu dei a ela, e no adianta negar. Conheo-o melhor do que imagina, Brad Danner. E, para fim de conversa, metade desse dote foi gasto por voc logo na primeira semana do casamento, e com quem? Com sua amante.
Um clique furioso, seguido do rudo de linha ocupada, foi a resposta que Donavan recebeu.
 O candidato  guarda de Jeff  murmurou ele, com amarga ironia.  E possui uma carteira de identidade que o qualifica como homem!
 Mas ele no gostava de sua irm?
 Tudo indica que no, pois estava envolvido com outra mulher antes, durante e depois do malfadado casamento. Antes de Lucy morrer, ele conseguiu, no sei como, que Jeff no fosse nomeado beneficirio, e o resultado  que ficou com todo o dinheiro do seguro. Enfim, tenho por cunhado o tipo mais acabado de crpula.
 No entendo por que razo ele telefonou. S para provocar?
 Com certeza. Estava meio embriagado, pelo tom de voz. Ele disse que nosso casamento  uma fraude, Fay. Agora, mais do que nunca, temos de agir como amantes apaixonados. Voc compreende, no ?
  Claro  Os olhos de Fay pousaram com nostalgia na camisa desabotoada do marido, para desviarem-se em seguida.  Foi por isso que voc me trouxe aqui, Donavan? Para que nossa representao na corte fosse mais convincente.
Ele pestanejou, mas preferiu ser honesto.
 Em parte sim. Queria que voc parecesse feliz, para no correr o risco de perder Jeff.
 Entendo.
 O menino tem um sistema nervoso muito sensvel, Fay. Ele  o que os mdicos chamam de vagotnico. Isso significa que qualquer aborrecimento, qualquer dorzinha de cabea que ele tenha, se transforma num sofrimento. Alm disso, Jeff  tudo o que me resta de famlia.
Ela se ergueu da cama, ajeitando a blusa. E disse, com voz suave:
 Engraado. Uma vez eu pensei que fizesse parte de sua famlia. Isso prova como o dinheiro pode embotar as mentes. Acho que fiquei mais estpida depois que enriqueci.
Donavan enfiou as mos nos bolsos, detestando o sentimento de culpa que o afligiu naquele momento. Fay era rica, milionria. Tinha o mundo nas mos, e no precisava de nenhum marido pobre, muito menos de um filho adotivo. Mesmo que ele a quisesse para sempre, o que no era o caso, Fay logo se cansaria de brincar de pobretona. De escndalos, bastava-lhe um na vida.
Sua nica esperana agora era que Fay no tivesse engravidado. Uma criana tornaria a vida de ambos insuportvel, pois Donavan jamais daria as costas ao prprio filho. Ambos estariam num beco sem sada. 
 De certo modo, foi uma sorte Brad Danner ter-nos interrompido  disse, pensando em voz alta.  Creio que  melhor no corrermos mais nenhum risco, Fay. Amanh cedo conversaremos com mais calma. Era uma dispensa, e das mais solenes. Calada, ela terminou de abotoar a blusa e dirigiu-se para o seu quarto, sem saber como analisar as bruscas mudanas de atitude do marido. Por que ele tentara seduzi-la com tanto afinco? Por que a rechaava agora, com medo de deix-la grvida? No havia resposta.

Na manh seguinte, Fay vestiu-se com todo o apuro e cuidado. Colocou o conjunto que usara no casamento, alegrando-o com uma blusa de seda colorida e um dos broches de Tia Tessie, Fez um coque elaborado, puxou alguns cachinhos para frente e arrematou tudo com um chapu elegante, de abas largas Em tudo e por tudo, ela se apresentou exatamente como era: uma mulher distinta e de alta estirpe, criada para ser uma dama.
Donavan, assim que a viu, no conseguiu mais despregar os olhos da esbelta silhueta da mulher.
 Voc est... encantadora.
Fay forou-se a dar incio  representao ali mesmo, e sorriu com graa:
  Obrigada, meu querido.  muito gentil.
Mas seus olhos traam-na. Eram dois pedacinhos de gelo tingidos de verde. As bruscas variaes de temperamento de Donavan haviam-na extenuado, e ela desistira por completo de enxergar o futuro com alguma esperana. A nica fora que a impelia para frente era a palavra empenhada. Iria ajudar Donavan a ganhar a custdia de Jeff, ainda que isso lhe custasse caro. Muito caro, na verdade.
  Voc ser capaz de enganar muita gente  retorquiu ele, com frieza.  Desde que ningum chegue perto e no veja seus olhos.
 Oh, isso  simples de consertar.
Assim falando, Fay puxou o petulante veuzinho do chapu para baixo, escondendo os olhos.          
 Pronto. A tem, Donavan: uma esposa bonita e feliz, pronta para o terceiro e grande ato da pera.
Mas Donavan no gostou da brincadeira. Os contornos de seu rosto ganharam a dureza do granito, enquanto ele a fitava num silncio reprovativo.
 Ento, todo o mundo est pronto?  Jeff saiu do quarto e tentou dar um tom alegre  voz, mas falhou miseravelmente. Seus olhos escuros pulavam de Donavan para Fay, ansiosos e tristes.  Oh, droga, para que fingir? No estou nem um pouco feliz com esse julgamento.
 Nem ns, campeo. Por isso mesmo devemos nos apressar. Quanto mais depressa terminarmos com essa histria, tanto melhor.  A mo morena de Donavan pousou por alguns instantes na cabea do garoto.  No se impressione muito l na corte, meu velho. E mantenha os ombros aprumados. Nada desse ar abatido, vamos!
 Sim, titio.
Dentro em pouco os trs tomavam o caminho do frum, num silncio carregado de preocupao e baforadas de charuto.
Brad Danner era, sob todos os pontos de vista, exatamente o que Fay esperava. Baixo, magro e ruivo, parecia ter um ego do tamanho do mundo.
-  Ento  voc a ltima aquisio de nosso amigo J. D. Langley. Deixe-me avis-la que essa encenao no vai funcionar. Oua meu conselho, e volte depressa quele bar de estrada onde ele a encontrou, meu anjo.  Ante o olhar de surpresa de Fay, ele sorriu, mostrando uma fieira de dentes manchados de nicotina.  Oh, sim, madame. Andei investigando por a, e lenho uma ou duas informaes a seu respeito.
 Mesmo? Que interessante!  Fay sentiu-se calma e segura. Na verdade, estava comeando a gostar da histria.  verdade, Donavan me encontrou num bar. Mas eu no trabalhava l.
 No,  claro que no  riu Brad, cujos olhos aguados espelhavam compreenso e piedade.  Bem, com licena. At daqui a pouco, se no estou enganado.
Dizendo isso, ele se afastou com uma loura oxigenada, em adiantado estado de gravidez. A seu lado seguia um homem barrigudo, carregando uma pasta de documentos.
Donavan, que tinha ficado para trs a fim de estacionar o carro, surgiu no saguo e fez-lhe de longe sinal que o acompanhasse.
Minutos depois, todos se sentavam numa mesa comprida. Todos, menos o principal interessado. Jeff teria de esperar em outra sala e, por ser menor, no poderia participar das discusses, a no ser em caso de absoluta necessidade, e a chamado do juiz.
Aps as formalidades iniciais, o juiz deu a palavra ao advogado de Brad Danner; era o homem barrigudo que Fay vira momentos antes, e chamava-se Harry Tillman.
O discurso foi longo, pomposo e floreado. O sr. Tillman desfiou todos os benefcios que Brad Danner concedera a Jeff, terminando por explicar que o garoto fora colocado, depois de penosos sacrifcios, numa instituio de ensino exemplar, a qual mais tarde proporcionaria uma brilhante carreira ao "prometedor jovem".
  Admitimos que o sr. Danner no tem laos sanguneos com o garoto, ao contrrio do sr. Langley. Contudo, e apesar de seu casamento recente e precipitado, numa infeliz e v tentativa de apresentar a esta corte um lar estvel, o sr. Langley descuidou-se de um pequeno detalhe. Ele se esqueceu de manter sua jovem e formosa esposa dentro de casa.
Enquanto Fay e Donavan trocavam um olhar perplexo, Harry Tillman tirou da pasta inmeras fotografias de Fay com tio Henry: no avio, em Miami, na casa de tia Tessie, e at numa loja onde eles estiveram.
  Eis, meritssimo, o que essa... essa "senhora" faz quando seu marido no est por perto. Podemos afirmar, sem receio de equvocos, que o exemplo moral dessa jovem no  compatvel com a excelente educao que o menino recebeu quando estava com meu cliente.
Donavan riu baixinho.
 Ento o senhor acha graa nessas fotos, sr. Langley? O senhor era praticamente recm-casado, se no me engano, quando sua mulher foi a Miami com este cavalheiro.
 Voc no  daqui, ?  redargiu Donavan, reprimindo a custo o riso.  E pelo que posso adivinhar, o detetive que tirou estas fotos tambm no .
 No foi detetive nenhum  interps Brad, agastado.  Foi um amigo que trabalhou como reprter na guerra da Coria. Mas isso no faz a menor diferena, meu caro. As provas esto a, e so irrefutveis. Esse cavalheiro da fotografia ...
 Meu tio  completou Fay, dirigindo um sorriso brilhante para o juiz.
Este, que a conhecia muito bem, devolveu-lhe o sorriso. Era evidente que ele tambm se esforava para no explodir numa sonora gargalhada.
 De fato  disse o juiz, depois de alguns segundos, lutando visivelmente para manter-se impassvel.  Henry Rollins  o tio desta moa. Eu o conheo h anos.
 Se  assim, por que ambos tm sobrenomes diferentes?  inquiriu o sr. Tillman, em cuja testa surgiram repentinas gotinhas de suor.
 Muito simples  explicou o juiz, com toda a pacincia.  Henry Rollins  irmo da me de Fay. Seus informantes no verificaram antes?
 Mas Donavan encontrou a moa num bar!  protestou Brad, inquieto.
  Se me do licena - a voz calma e pausada do advogado de Donavan fez com que todos se voltassem para ele.  A sra. Langley foi com o tio a Miami a fim de cuidar do inventrio da tia-av. Quanto  afirmao de que minha cliente teria trabalhado num bar, asseguro-lhes que nada poderia estar mais longe da verdade. Por essa poca, a sra. Langley era uma senhorita que tinha acabado de entrar na sociedade. Uma debutante, como se diz em Jacobsville. E, antes que se tirem mais concluses precipitadas, deixem-me acrescentar que, com a morte da tia-av, a sra. Langley tornou-se herdeira de uma das maiores fortunas do pas.
Brad Danner ficou branco como uma folha de papel, enquanto fuzilava o panudo advogado com o olhar.
 Estive conversando com Jeff antes de vir para c  disse o juiz. Soube por ele que o casal Langley vive em excelente harmonia. Mais: Jeff assegurou-me que  feliz na fazenda do tio, onde  cercado de carinho e conforto. Sua acusao de que esse casamento  fraudulento carece de fundamento, Sr. Danner.
 - J.D.  faria qualquer coisa para ficar com meu enteado. Qualquer coisa, at fingir que est bem casado. Quer uma prova? Pois pergunte ele mesmo se existe amor nesse casamento. Donavan jamais mente, isso eu posso atestar. Pergunte, senhor juiz, se Donavan ama a mulher.
Fay se ps de p.
- Sei como meu marido se sente em relao a mim, Sr. Danner. Sei tambm como o senhor se sente em relao a ele. Jeff no passa de um simples peo para o senhor, mas para Donavan significa a prpria vida. Ambos se do s maravilhas, posso lhe garantir. Jeff receber afeto e educao apropriada, no numa academia militar de disciplina frrea, mas numa escola de excelente formao, a de Jacobsville. Alm disso, na academia militar no se toleram visitas, a no ser duas vezes por ano. Se faz tanta questo da custdia de Jeff, por que pretende envi-lo a essa academia?
  uma boa pergunta  interveio o juiz, dirigindo-se placidamente para Brad.  O que tem a responder, sr. Danner?
 Minha mulher est grvida  Brad Danner levou um dedo ao colarinho, afrouxando-o.  Jeff deixa-a muito nervosa. No  isso, meu doce?
A loura oxigenada dirigiu-lhe um sorriso forado e no respondeu. Parecia aborrecida e inquieta.
 Desculpe, sr. Danner, mas no compreendo por que razo insiste tanto na custdia do garoto.
 Diga de uma vez, Brad, seno conto tudo  explodiu a loura, irritada.  Senhor juiz, ele quer o menino por causa do seguro. A parte que cabia a Jeff j foi gasta h muito tempo, e ele no tem meios de devolver o dinheiro.
 Pequena imbecil!  rugiu Brad, passando de plido a escarlate.
 Eu s disse o que devia  retorquiu a outra, dando de ombros.  Voc morria de medo que seu cunhado descobrisse a verdade. Pois bem, agora ele j sabe, e da? No passam de mseros mil dlares, afinal. Se voc no tivesse comprado aquele maldito barco, ns no estaramos nesta bela encrenca financeira agora.
Formou-se um pequeno tumulto sobre a mesa, Brad Danner uivando e tentando esganar a mulher, esta soltando gritinhos apavorados. O juiz teve que erguer a voz e bater na mesa vrias vezes, at que a sentena foi pronunciada: Jeff ficaria com Donavan, e Brad Danner teria de devolver os mil dlares do seguro num prazo mximo de seis meses.
Quando os trs deixaram o frum, a cabea de Fay girava num torvelinho.
 Fay, estou to aliviado!  Jeff ria e saltitava, abraando um e outro sem parar.  Vou ficar na fazenda, vou ficar na fazenda! No  sensacional?
 Absolutamente sensacional, querido.
 Voc e tio Don enganaram todo o mundo direitinho, no  mesmo? Todos pensaram que vocs formavam o casal mais feliz do mundo!
 , essa foi a piada do sculo  tornou Fay quietamente. Seus olhos opacos buscaram os de Donavan.  Parabns. Voc ganhou a batalha.
  Sim, ganhei. Agora tenho tudo o que queria.
Contente por ter um vu diante dos olhos, ela ps um brao sobre o ombro de Jeff e deu-lhe as costas.
Donavan seguiu-os com passos inseguros. No sabia com certeza identificar seu sentimento; seguramente, no podia qualific-lo de felicidade. Ganhara Jeff,  claro, e isso o alegrava. Mas algo empanava sua alegria e trazia-lhe um travo amargo  boca.
Seria a perda de Fay? No, no podia ser. Fay era rica, e ele no. Tinham estilos de vida totalmente diferentes, e alm disso haveria uma montanha de falatrios para perturbar-lhes a vida.
De repente, Donavan se deteve. Diabos, por que no pensara nisso antes? Os falatrios j deviam existir,  claro! Porque ele se casara com Fay, e Fay era milionria. Mesmo que viesse divrcio ou anulao, os mexericos continuariam. Diriam at que ele concedera em se separar mediante um gordo pagamento de Fay. Haveria falatrio com ou sem Fay, essa era a verdade.
Riu alto e amargo antes de retomar o caminho. Tal pai, tal filho. Ouviria essa frase at o fim de seus dias, e no havia como livrar-se dela. Tal pai, tal filho.
De sbito, a censura pblica que tanto o preocupava reduziu-se a um grozinho insignificante de areia. Ele era ele, J. D. Langley. Um homem razoavelmente decente, de carter razoavelmente decente. Era a "sua" opinio que importava, no a dos outros. Estava satisfeito com o que semeara, plantara e colhera ao longos de seus trinta e cinco anos. E tinha plena conscincia de que semeara bem.
Ento, por que se preocupar com falatrios de gente que no tinha mais que vento na cabea? Seus verdadeiros amigos, esses no o julgariam mal. Se at Brad Danner declarara em corte que ele no mentia!
Seus olhos fixaram-se na figura esguia de Fay. Deus, como a queria! Acostumara-se a t-la em casa, e gostava de v-la s voltas com livros de receita, atrapalhada entre panelas e terrinas. Gostava de sentir o perfume de jasmim quando entrava em casa. Acima de tudo, gostava de ver-lhe o corpo de porcelana, estonteante em sua nudez, quente e macio, bom de pegar. Fay possua uma capacidade especial de despertar sua masculinidade, levando-o a um paroxismo de xtase que fazia seu sangue ferver nas veias. Mesmo naquele momento, por exemplo...
Um filho. Deus, queria ter um filho. Dela, e de mais ningum.
 Tio Don, por que no vamos a uma pizzaria? Afinal, hoje  dia de comemorar!
 Boa idia, campeo. Desse modo, Fay est livre de cozinhar, ao menos por hoje.
  Que nada  disse Fay, piscando para Jeff.  Seu tio est mas  farto de bifes queimados e maioneses desandadas...
Jeff soltou uma risada gostosa, mas ela no conseguiu acompanh-lo. Sabia que lhe restava pouco tempo ao lado dos dois. Muito pouco tempo.







CAPTULO X



Fay sorriu e brincou o tempo todo, mas a pizza parecia-lhe feita de palha, apesar dos elogios entusisticos dos dois alegres companheiros. Sua vontade era gritar e desabafar aos quatro ventos o quanto se sentia injustiada pela vida. Sempre tivera dinheiro, mas nunca amor, e agora tudo indicava que perdera ambos para sempre.
Nesse clima retornaram para casa. Alm da perda iminente de Donavan, Fay tambm se preocupava com o futuro. O dinheiro de tia Tessie iria ajud-la por algum tempo, mas at quando? Por mais que se esforasse para manter o bom humor, volta e meia seus olhos se fixavam no vazio, a mente imersa em conjecturas.
 tarde, como fizesse calor, ela foi se sentar na varanda, a fim de aproveitar o magnfico espetculo do sol dourando o jardim florido.
 Onde est Jeff?  perguntou Donavan, surgindo na soleira.
 No celeiro, com Victor. Parece que nasceu uma nova ninhada de cachorrinhos. Ele est eltrico com a novidade.
 Ah, sim, da Princesa  Donavan sorriu e acendeu um charuto, antes de se sentar ao seu lado no balano.  Voc no me parece muito feliz, Fay. Lembre-se que ns ganhamos.
  Sim, fico contente por Jeff. O coitadinho estava uma pilha de nervos antes do julgamento.
Ele se acomodou melhor, atirando as pernas para frente.
 No havia razo para tanto  disse, rindo baixinho.  Por intermdio de um amigo, fiquei sabendo que Brad tinha contratado esse reprter da Coria para descobrir provas contra mim. Sabe o que eu fiz. Pedi a esse amigo que soprasse no ouvido do tal reprter a histria de que voc tinha um amante e escapara com ele para Miami... 
 Donavan! Fay encarou-o, escandalizada.
- Bom, no tenho culpa se o homem engoliu a isca com anzol e  Azar de Brad, sorte minha.
 - Mas no foi honesto de sua parte!
  Por que no, ora esta? Foi uma jogada inocente, tanto que eu mesmo no acreditei na sua eficincia. Ainda que no fosse, eu tentaria lograr Brad Danner como pudesse. Simplesmente, no poderia deixar que Jeff casse nas garras daquele patife.
 Sim, e com essa histria minha reputao ficou arranhada. Muito bonito!
 Por poucos minutos. Foi por uma boa razo, mas em todo o caso, peo-lhe desculpas.
 Est desculpado - Fay no teve outro remdio seno rir tambm.  At que foi engraado. Viu s a cara do juiz? A fora que ele fazia para no explodir na gargalhada, meu Deus!
 , meu estratagema funcionou  Os olhos cinzentos pousaram nos dela, inquisidores e srios.  E agora, Fay? Que pretende fazer?
Durante alguns instantes ela escutou o rangido ritmado das correntes do balano.
 Ficar aqui o tempo suficiente para seu cunhado se convencer que perdeu a causa. J discutimos isso, Donavan.
 No, no discutimos. Voc me disse que voltaria para seu apartamento, com o que eu no concordei. Que diabos, Fay! Voc agora  rica. Por que no compra uma casa?
Ela cruzou as mos sobre o colo, sentindo-as frias e sem vida.
 Talvez eu faa isso.
Donavan perscrutou-a com ansiedade, em vo. Os olhos verdes permaneciam inexpressivos, fitando o horizonte.
 Pode ficar aqui por enquanto. H lugar de sobra na fazenda, e Jeff gosta de voc. Alis, Belze tambm.
 J queimei comida o bastante por aqui.
 Ningum reclamou.
Era verdade. Ainda na vspera, Jeff elogiara um sufl que sara cru e salgado do forno.
 Talvez um dia eu aprenda a cozinhar  volveu ela, querendo fazer graa.  Daqui a alguns anos...
Donavan estudou o bico das botas.
 Em vez disso, que tal aprender a cuidar de fraldas e mamadeiras? - Fay voltou-se devagar.
 Como assim?
 Bem, suponha que continuemos casados. Logo chegaria um beb, e ns ento poderamos dar uma famlia completa para Jeff. Acho que ele gostaria disso.
Ela estudou-o por alguns minutos, entre curiosa e surpreendida, em busca de algum sinal de carinho. Mas nada encontrou.
 Tenho sido cruel com voc, Fay. D-me uma chance de consertar o que estraguei, por favor.
 Engravidando-me?
 S se voc quiser. Se no, estou disposto a esperar alguns anos. Voc  muito jovem ainda, pequenina. Pode ser que prefira viajar ou estudar um pouco mais, antes de se ver s voltas com bebs.
 J viajei bastante e no quero voltar a estudar. Tenho meu emprego e pretendo continuar com ele,
 Mas no precisa, se no quiser. Por que no pede demisso?
 Por enquanto no estou pensando nisso.
As espirais de fumaa estiravam-se preguiosamente aos raios brilhantes do sol. Fay seguia-as com os olhos, indecisa sobre se continuaria ou no a falar.
 Donavan  disse por fim, procurando as palavras com cuidado  Quanto  minha herana, eu gostaria de dizer que...
 Esse assunto j no me interessa, Fay. Descobri que no dou a mnima para falatrios. A bem da verdade, at hoje estou surpreso comigo mesmo, com minha cegueira e minha falta de discernimento. No sou igual a meu pai, e ponto final. Casei-me com voc por causa de Jeff, no para enriquecer da noite para o dia.
Por causa de Jeff, repetiu-se ela com tristeza, suspirando. Por causa de Jeff.
Donavan ergueu-lhe o queijo.
 Que suspiro fundo, pequenina! Vejo que no gosta de acreditar que eu me casei por causa do garoto. E quando voc voltou de Miami, gostou ainda menos quando pensou que eu tinha mudado de idia e estava interessado em sua herana.
 Nada disso me preocupa  mentiu ela.
 Preocupa sim  retorquiu Donavan, muito quieto.  Eu a queria de volta porque senti sua falta. Meu corpo ansiava pelo seu. E voc me desejava do mesmo modo, no negue. Eu podia sentir desejo em cada poro de sua pele.
Ela enrubesceu.
 Foi uma experincia nova  murmurou, embaraada.
 Mais que isso, pequenina.  Os dedos dele comearam a acariciar-lhe os braos, os ombros, o pescoo.  Ns fomos juntos visitar o paraso, no fomos? E eu me senti de bem com a vida quando percebi o prazer que conseguia lhe dar.
 Foi a sua experincia...
 Escute, Fay. Conheci vrios corpos femininos, e no pretendo neg-lo, mas nada se compara ao imenso prazer que experimentei amando voc. Mesmo na nossa noite de npcias, quando no pudemos ir at o fim, meu prazer foi indescritvel. Nessa noite descobri que no era o atrao fsica o que existia entre ns, mas tentei sufocar a verdade no fundo de meu corao. Ela me assustava, pequenina. Contudo, quando voc foi para Miami, no pude mais me furtar  realidade. No dormi a noite toda, pensando em como a havia tratado mal. Voc gostava de sua tia e eu, em vez de confort-la, fui rude e grosseiro. Peo-lhe desculpas, Fay. Voc merecia outro tratamento.
 No tem do que se desculpar. Ns nos casamos pelo bem de Jeff, como disse.
Donavan tomou-a nos braos, embalando-a carinhosamente.
  Voc no entendeu nada do que eu disse, no ?
 Entendi  Fay estava  beira das lgrimas.  Voc est com a conscincia pesada por minha causa.
 Voc me escutou s com os ouvidos. Oua com o corao tambm.  Os olhos prateados pousaram nos dela, cheios de adorao.  No entendeu ainda? No sentiu ainda?
Sem esperar resposta, ele se inclinou e capturou-lhe os lbios com tanta ternura, que Fay sentiu-se levitar no espao. Instintivamente, abriu a boca para receber a lngua quente e palpitante, enquanto uma fogueira se ateava em seu corpo.
A mo morena deslizou para dentro da blusa, em busca do seio nu e macio, massageando-lhe o bico cor-de-rosa. Em transe, Fay entregou-se  doura das carcias, gemendo baixinho de puro prazer.
 Se estivssemos sozinhos, pequenina...  sussurrou ele, seguindo com os olhos a figura do sobrinho que corria pelo gramado, perseguido de perto por dois cezinhos. Mais ao longe, um peo vigiava as brincadeiras com um sorriso indulgente.  Ei, Victor! Cuide de Jeff para ns, sim?
O peo voltou-se para o patro e fez-lhe um sinal de que compreendera.
 Deixe comigo, chefe. Pode ir descansar  vontade. - Donavan voltou-se para Fay, os olhos brilhantes e lmpidos espelhando promessas.
 No, no podemos...  Ela recuava, Donavan avanava devagar.  Voc est brincando, no est? Jeff e Victor a fora...
Com um nico movimento ele a catou no colo.
 No, no estou brincando  sussurrou.  Hoje vai ser diferente. Rpido, quente e bom.
Nem bem chegaram ao quarto, ele a esmagou de encontro  parede e abriu-lhe o zper do jeans, procedendo do mesmo modo com o seu. Fay ensaiou um protesto dbil, mas ele a calou com beijos, enquanto sua lngua penetrava-lhe os lbios em investidas curtas, provocando um despertar febril e quase feroz.
E de repente o quarto pareceu pequeno demais para conter a sbita paixo que explodiu entre os dois. Fay viu-se acordada por uma sensao inteiramente nova, algo que a fazia vibrar e amolecer por dentro, como lava candente de um vulco de h muito adormecido. No queria mais que o beijo acabasse; s queria sentir o marido e aprender essa nova linguagem do amor.
Ele a suspendeu com os braos possantes, mantendo-a presa  parede. E penetrou-a com meiga selvageria, o corpo macio invadindo-a, inundando-a de luz por dentro. Fay enlaou-o pelo pescoo e rodeou-lhe a cintura com a perna, maravilhando-se com a inexplicvel sensao de conhecer, pela primeira vez, o gosto da paixo sem rdeas nem freios.
O prazer que Fay sentiu foi completo, vertiginoso, inebriante. E quando ambos gritaram alto e tombaram exaustos nos braos um do outro, a paz desceu, trazendo consigo uma luz que a ofuscou. A luz da felicidade,
 Gosto dos gemidos que voc deixa escapar quando fazemos amor   disse ele, ainda ofegante.  Seu corpo vibra, Fay. E me excita.
 O pior  que ainda estou tremendo  riu ela, enleada.
 Eu tambm. Desta vez ns chegamos l em cima, no foi?
 Foi, Donavan. L em cima.
Ele se afastou, sorrindo, os olhos desfazendo-se em gotas de prata.
 Temos de nos contentar com essa amostra at de noite, pequenina. Acha que agenta at l?
 Veremos  provocou ela.  Eu... Eu no estou sonhando, estou?
 No, doura. Estamos ambos acordados para a vida.
Quando ele puxou o zper para cima, Fay enrubesceu, o que o fez soltar uma gargalhada sonora.
- Ficou com vergonha s agora? H cinco minutos voc poderia estar debaixo de uma mesa no restaurante que nem perceberia.
 Nem voc.
  verdade  Donavan puxou-a para si, os olhos dizendo coisas nas quais ela no queria ainda acreditar.  Deus, como eu te amo, pequenina.
Fay abriu muito os olhos brilhantes. No podia ser. Estava ouvindo demais outra vez.
  verdade, minha Fay. Estou perdido de amor por voc. Quero viver para sempre em sua companhia e na de Jeff. E ter filhos aos montes. Mas se no vier nenhum, tambm no me importo. Voc e Jeff so mais do que eu mereo.
 Voc me ama!  repetiu ela baixinho, saboreando cada palavra.  Desde quando?
 Desde aquela noite no bar. Deus sabe o quanto eu lutei contra esse sentimento, mas no houve jeito. Afoguei-me nesses olhos verdes desde aquele dia, sem possibilidade de volta.
  O dinheiro de tia Tessie...
 J disse que no ligo mais para isso. Eu te amo pelo que voc . Faa o que quiser com sua herana.
  Vou deixar rendendo no banco, ento. Para pagar o colgio de Jeff.
 O colgio de Jeff no  to caro assim  riu ele, deliciado.
 Nem minha herana  to grande como pensa.
Em poucas palavras, Fay relatou-lhe sobre o ltimo testamento da tia e sobre o asilo para crianas. Donavan ouviu com evidente surpresa, mesclada de respeito.
 Sua tia devia ser uma pessoa encantadora. E humana.
 Era perfeita, Donavan. Bem, agora voc entende por que eu no queria desistir de meu emprego.
 Tem razo.  Ele coou a cabea, pensativo.  Acho que os Ballenger se portaram de maneira decente com voc. Isso quer dizer que eu terei de me mostrar mais civilizado com Calhoun, no ?
Fay riu da careta do marido.
 No vai ser difcil, querido. Calhoun  excelente pessoa.
 E Henry Rollins  continuou ele, fazendo outra careta.
 Tambm.
Os olhos de diamante fitaram-na com gravidade.
 No pretendo me reformar por inteiro, Fay. Sou como voc est me vendo.
 E assim que eu gosto. Alis, eu tambm no pretendo mudar, exceto engordar um pouco e ganhar algumas rugas.
 Ao mesmo tempo que eu? Maravilhoso, minha Fay!  Ele a puxou com ternura, embalando-a.  Para sempre, querida?
 Para sempre, Donavan  murmurou ela baixinho, lutando para segurar as lgrimas que teimavam em brotar dos seus olhos. Lgrimas de felicidade.  Agora chegou a minha vez de dizer.
 Que me ama? Mas voc j disse, querida. No se lembra? Quando se entregou inteirinha a mim, aqui neste quarto, pela primeira vez. Disse e repetiu que me amava.
 No me lembro, mas no  de admirar. Afinal, voc me deixou fora de mim...  De sua boca escapou um riso alegre, cristalino.  Agora vou repetir, de mente lcida: Eu te amo, Donavan.
Ele se inclinou ternamente.
 Minha Fay, minha mulher, minha rainha!
 Tio Don!
Donavan abanou a cabea, impaciente, e foi abrir a janela.
 Que  agora?
 Posso ir com eles?  perguntou Jeff, ansioso, apontando para dois amiguinhos. Cada um tinha uma vara de pesca e uma lata de minhocas na mo.  Eles prometeram me ensinar a pescar, tio Don. Por favor? Juro que trago um belo jantar para ns.
Donavan riu, satisfeito.
 Est bem, campeo. E trate de trazer mesmo o nosso jantar, seno...
 Trago, trago!  gritou o garoto, saltando de alegria.
 Se Jeff no pescar nada, ns mergulhamos e colocamos um peixe no anzol dele  brincou o mais alto, um moreninho simptico e sardento.
 Combinado  volveu Donavan, fechando a janela.  Agora raspem-se daqui!
Enquanto a algazarra ruidosa dos trs se escoava no cu da tarde, ele tirou o telefone do gancho e se voltou devagar para a mulher.
 s vezes, minha Fay, a vida pode ser bela. Como agora...
Ela quis responder, dizer que sim, a vida era linda. Mas no pde, porque Donavan j a carregava para o paraso particular, aquele que s os dois conheciam.


Na manh seguinte, Fay trabalhava no computador com Calhoun quando Donavan entrou inesperadamente.
 Bem, com licena  comeou Calhoun.
 No, fique onde est  cortou Donavan, com uma careta.  Fui reformado, ou antes remodelado por minha mulher. No vim aqui reclamar de nada, pela primeira| vez na vida,
 No acredito  retorquiu o outro, alegremente surpreso.
 Pois  bom ir se acostumando, meu velho. Para dizer a verdade, estou com vontade de trazer outra partida de gado para vocs controlarem.
 No diga!
 Acabei de dizer. E, j que estamos nisso, quero lhe agradecer por manter Fay no emprego. A herana dela vai dar apenas para pagar o colgio de Jeff. E, como pretendemos pagar colgio para mais alguns, cada centavo ganho ser bem-vindo.
 No me agradea; Fay  excelente funcionria. Quanto  herana... bem, sinto muito. Que azar, hein?
Donavan abriu um sorriso despreocupado e feliz.
 No  o que penso.  bom lutar por um lugar ao sol, em vez de ganh-lo de mo beijada. A dois, ento, fica muito mais divertido.
Seus olhos cinzentos pousaram com ternura em Fay, que juntou:
 E nos d mais fora para continuar. - Calhoun pigarreou.
 Sua mulher pode ser dispensada mais cedo para o almoo, se quiserem.
  Obrigado, meu velho. Voc me entendeu melhor do que eu esperava.
Impulsivamente, Donavan esticou a mo, e Calhoun apertou-a.
 Fay  uma jia rara. Voc  um homem de sorte, J. D.
 Sei disso, melhor que ningum.
Depois de terem comido dois hambrgueres, Fay e Donavan saram abraados pela rua.
 Sua vida no vai ser muito fcil, querida. Acho que voc ter de trabalhar ainda por alguns anos, para ajudar nas despesas da fazenda. Posso colaborar na cozinha, mas quando os filhos comearem a chegar, seu trabalho ser dobrado.
Ela sorriu docemente, perdida nos olhos cinzentos.
 Tenho voc, Donavan.  tudo o que me interessa. Nunca fui to feliz como agora.
  Tem certeza? Voc sempre teve do bom e do melhor...
 Ainda tenho.
 Sabe o que quero dizer.
 Sei, e voc tambm me entendeu. Para ser honesta, gosto de enfrentar esse desafio em sua companhia.  gratificante trabalhar e construir, Donavan. Principalmente quando existe amor.
  Voc  nica, minha Fay  disse ele, colhendo-a nos braos.  Espero que no se arrependa nunca. No sou uma pessoa fcil de conviver, como sabe.
- Para mim, . Enquanto eu o tiver ao meu lado e puder abra-lo assim, voc  a pessoa mais fcil de amar deste mundo.
 Ento me abrace. E nunca me deixe, pequenina. Fay aquiesceu, feliz.

Fim!



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